Livro

Viagem em quadrinhos

Filme de viagem ou literatura de viagem existe. Já pensar em quadrinhos de viagem ou, sei lá, travel graphic novel enquanto gênero narrativo soa estranho. Mas é só um problema de nomenclatura mesmo, porque basta uma olhada atenta na minha estante para perceber como o ato de se locomover ou explorar está tão presente na arte sequencial quanto em suas irmãs mais velhas e nobres Aventuras de heróis sempre podem acontecer longe de Patópolis ou Nova Iorque. Abaixo, algumas das minhas aventuras favoritas,

Joe Sacco, Palestina

Palestine devia ser obrigatório no colegial. Sinônimo de reportagem em quadrinhos, a obra de Joe Sacco é um impressionante relato de zonas de guerra na Palestina e Bósnia Oriental. Repórter nato, ele se envolve com os personagens locais para contar histórias duras de digerir. Como na melhor literatura de viagem, ele vai até onde você não pode ir e volta para contar o que há por lá. O fato de que os desenhos esclarecem detalhes violentos ou profundamente tristes, não ajuda a tornar a leitura de qualquer um de seus livros algo agradável. Mas é enriquecedor e ajuda a entender o que há por trás do conflito que está todos os dias nas páginas dos jornais. Saiu em português pela Conrad com o título Palestina, Uma Nação Ocupada.

Jeff Smith, Bone

Agora, para algo totalmente diferente (e bem mais leve). Bone: The Complete Cartoon Epic in One Volume é uma das minhas leituras preferidas e meu filho de nove anos acaba de se apaixonar pela história três criaturinhas com senso de humor peculiar num mundo habitado por dragões, princesas guerreiras, ratazanas imbecis e nuvens de gafanhotos. Acha bobo? Não poderia estar mais longe. Além de hilário, Bone é bem construído, emocionante e inteligente. Quem é fã de Adventure Time hoje vai entender. Se você lê inglês, vá direto ao assunto: a coletânea com a saga inteira é pesada e vale cada centavo. UPDATE: a Todavia vai lançar no Brasil, em edição colorida e em português.

Love & Rockets: The Lost Women

Aproveite que a Gal Editora está relançando as histórias clássicas dos irmãos Gilbert e Jaime Hernandez no Brasil e conheça o combo inteiro: Maggie, Hopey e a turma do barrio Hoppers, o premiado realismo fantástico da cidadezinha Palomar (que deve mais do que um braço à Macondo de Garcia Marquéz), as aventuras da espetacular Penny Century (“what a name, what a phenomenon!”), da problemática Errata Stigmata e da campeã de luta-livre Rena Tinañon. Em Lost Women, criada por Jaime, vemos Maggie trabalhando como mecânica de foguetes e encarando uma viagem para um lugar no meio da selva onde encontra sua ídola, Rena, envolvida com uma história de intriga política latina. Foguetes? Sim, e também robôs, dinossauros, luta livre, lesbianismo e punk rock.

J.M. de Matteis, Moonshadow

Moonshadow é difícil de encontrar e é uma jóia pouco comentada das graphic novel, uma história de passagem da infância para a vida adulta cheia de filosofia. Pode não ser do gosto de todo mundo, mas está aqui porque é uma narrativa de viagem que começa com a mãe do personagem-título engravidando de uma enorme esfera luminosa numa viagem de ácido em Haight-Ashbury e segue com as aventuras da família numa nave espacial universo afora, até Moonshadow se tornar orfão e ter que lidar com as perdas e descobertas da juventude. Tem aventura espacial, conto de fadas, sarcasmo e gatos. Foi lançada pelo sub-selo Epic, da Marvel, entre 1985 e 87 e relançada pela Vertigo, da DC, no fim dos anos 90. Dá pra achar num volume só, em inglês: chama The Complete Moonshadow.

Delgado, The Age of Reptiles: The Journey

Se eu falar pra você que essa graphic novel sobre dinossauros é uma das coisas mais legais na minha estante, você acredita? A viagem aqui é de um grupo de dinossauros (de várias espécies) pela Terra. Age of Reptiles: The Hunt
 é o terceiro livro da saga criada por Ricardo Delgado (que também trabalha no cinema) e é menos violento do que os dois primeiros, Tribal WarfareThe Hunt. O volume também trata os animais de forma mais natural, evitando as expressões de medo ou espanto dos dois primeiros livros. Mas não é uma obra científica e mistura dinossauros de épocas diferentes, o que pode irritar puristas da paleontologi (haha). Esse post no Smithsonian Magazine explica melhor. The Age of Reptiles foi premiado com um Eisner (o, cof cof, Oscar dos quadrinhos) na categoria “talento merecedor de maior reconhecimento”. Parece cult, mas é bem fácil de achar (semana passada mesmo vi um The Hunt dando sopa na Gibiteria da Benedito Calixto) e de ler — afinal, não tem balões!

Garth Ennis e Steve Dilon, Preacher

Vampiros, violência gore, amor romântico, magia negra e obsessões religiosas: Preacher tem tudo enquanto consegue ser engraçado e, acredite, terno. A história gira em torno de um trio formado por um ex-pastor forte e gato, um vampiro irlandês bêbado e uma assassina de aluguel inexperiente à procura de Deus, literalmente, numa estrada que os leva do Texas ao interior da França passando por Nova Iorque e New Orleans. Os nove livros fazem parte do melhor já publicado pela Vertigo e são capazes não só de embelezar sua estante, mas de melhorar consideravelmente sua vida. Saiu em português pela Panini.


Hergé, Tintim

Essa lista não faria sentido sem citar o cartunista belga e sua célebre criatura. Tintim ficou pela (ótima) série de desenhos animados na televisão e pelo (fraquinho) filme de 2011, mas quando eu era criança ele estava na série de livros responsável pela minha curiosidade em conhecer o mundo. Foi lendo e relendo as detalhadas páginas criadas por Hergé (dizem que cada álbum levava pelo menos dois anos de trabalho!) que vi pela primeira vez os monges do Tibete e as pirâmides do México. Os livros já foram acusados de racismo e, honestamente, não envelheceram tão bem em tempos de super-informação. Mas tente ler sem se preocupar com isso. Os personagens como Capitão Haddock e Professor Girassol continuam divertidos e as viagens de Tintim desvendando mistérios pelo mundo ainda são um passatempo e tanto.

Donald Duck: The Complete Carl Barks Library

Ainda na categoria clássico, a Fantagraphics está fazendo o favor ao mundo de republicar as melhores histórias da família Pato criadas pelo cartunista Carl Barks, incluindo as aventuras longas “Lost In The Andes” e “Trail Of The Unicorn”. São histórias de viagem nonsense, com narrativa e arte impecáveis, altamente delirantes e detalhadas. Barks passou 25 anos na Disney, foi criador do Tio Patinhas e Irmãos Metralha (entre muitos outros) e suas aventuras com a família Pato longe de Patópolis (Duckberg, no original) serviram de inspiração para, por exemplo, Steven Spielberg nos filmes do Indiana Jones.
* Update: vários já saíram português e chama Coleção Carl Barks Definitiva, procure na sua gibiteria preferida/

X-Men: The Phoenix/Dark Phoenix Saga

Chris Claremont e John Byrne são os responsáveis pela mais querida saga do universo mutante. Saiu nos EUA nos anos 80 e foi parar tanto nos desenhos animados quanto na primeira trilogia de filmes dos X-Men (de forma bem capenga, diga-se).  A Saga da Fênix Negra é cheia de ação, como convém a uma história de super-heróis, mas também é altamente emocional: nunca antes na história da HQ mainstream se mostrou tanto o lado humano de personagens, mesmo que esses lancem raios vermelhos pelos olhos ou tenham esqueleto de metal indestrutível. É o melhor momento dos X-Men. O que muita gente não lembra é que boa parte da saga se passa longe da Mansão Xavier: os X-Men vão atrás da Jean Grey/Fênix no planeta Shi’ar e podemos vê-los se preparando para a batalha e se envolvendo com os heróis locais. É o mais perto de ‘literatura de viagem’ que um grupo de super-heróis mutantes lidando com questões emocionais que jamais poderemos compreender (como “minha namorada está fora de controle e  tornou uma força cósmica destrutiva”) consegue chegar. Update: o filme é péssimo e não vou nem dar link.

Tem mais? Claro!

Faltou Moebius, Surfista Prateado, a viagem manga-eco de Nausicaä do Vale do Vento, as sinistras aventuras do Constantine em Hellblazer, as idas de Asterix para Egito, Wolverine no Japão, os Books of Magic (sobre um menino viajando pelos reinos da magia, w inspiração para o Harry Potter de JK Rowling) ou a história do blues desenhada pelo Crumb. Ficam como inspiração prum próximo post. Me ajuda dando dica nos comentários ;)