Prosa, São Paulo

Mantendo a sanidade na Vila Madalena

Ao contrário do que escrevi nesse post, não cresci em São Paulo. Nasci aqui, sim, paulistaníssima, na Clínica Tobias (de parto Leboyer!). Mas passei boa parte da infância em Ribeirão Pires, prá lá do ABC paulista.

A Vila Madalena só se tornou minha morada em 1987, no auge da febre do Menudo. Minha família saiu do sítio onde crescemos na sempre nublada Ribeirão para um apartamento de dois quartos na Purpurina quase esquina com a Jericó, ao lado do Fórum de Pinheiros. Durou pouco. Minha mãe não demorou pra achar uma casa na Rodésia, perto de onde ela mesma cresceu, na descida para a Fidalga. Dava pra subir na laje e ver o sol se pôr na Cidade Universitária. A vista era fantástica. Tão fantástica que alguém quis comprar. Uma hora minha mãe se viu obrigada a vender a casa e nos mudamos para a (detestável) Moema.

A vida deu muitas voltas e morei em muitos lugares, inclusive na divisa de Ribeirão Pires com Suzano (numa área chamada Quarta Divisão, essa fase foi bem ruim) e em Carapicuíba (na Granja Viana, numa casa feita de vidro no meio da mata, essa fase foi bem legal).

E em 2012 voltei para a Vila Madalena.

Uma das primeiras decisões sobre voltar a morar em São Paulo envolveu acabar com a ditadura do automóvel. O lugar onde moro hoje é bem abastecido de linhas de ônibus e fica meio do caminho entre estações das linhas verde e amarela. Também tem uma ciclovia e é fácil de chegar de bicicleta até a Marginal Pinheiros, onde dá pra guardar a magrela em segurança no bicicletário e usar o trem para ir até, por exemplo, Morumbi ou Vila Olímpia (na verdade nunca vou, ainda bem).

Mas meu principal meio de transporte são meus pés. Eu ando muito pela cidade, tento fazer as coisas caminhando. Os benefícios são óbvios: é gratuito, faz bem pro shape e principalmente pra cabeça. Além disso, ando rápido. Mas o principal motivo é que eu realmente gosto de caminhar pela Vila Madalena. E recentemente comecei a notar que gosto de andar pela Vila não só porque revisito locais e histórias da minha infância e adolescência, mas porque curto acompanhar as mudanças do bairro.

Onde fica o São Cristovão, por exemplo, era a casa da melhor amiga da minha mãe. Onde é a escola Snail, ao lado, é onde brincávamos de pega. Outra grande amiga da família morava num sobrado na Harmonia quase esquina com a Purpurina e quando eu fui atropelada andando sozinha pelo bairro ela que me “salvou” porque estava na fila do orelhão, onde hoje tem um ponto de ônibus barulhento. O lugar onde eu fiz terapia virou é uma loja de lingerie. A Mercearia já era lá mesmo, mas não pegava fogo madrugada adentro que nem hoje, claro. A casa de outra família amiga virou um restaurante caro. A casa uma colega de escola da minha irmã se tornou aquela loja da Nike que já foi derrubada e vai virar prédio.

O que me leva ao próximo ponto. Aprecio as mudanças por que acho que restaurantes e lojas deram uma vida diferente à Vila. Mas bodeio com os muitos prédios que estão sendo erguidos. Primeiro por que com a chegada deles as antigas casas, bares, farmácias e padarias vão desaparecem. Segundo por que eles trazem departamentos inteiros de gente andando em bando rumo ao quilo na hora do almoço, bloqueando calçadas. Terceiro por causa do trânsito de carros que vem junto com os prédios. Quarto porque são os prédios que vão acabar com a vista.

É claro que o que eu ou você pensamos não tem a menor importância. Tem muita gente maluca para comprar apartamento inflacionado na Vila Madalena. Prova disso é que enquanto escrevo essas há pelo menos quatro prédios em construção num raio de um quilômetro (só um palpite, pode ser bem mais).

Além disso, como vivemos tempos de Copa a Vila está meio assim. Mas logo volta ao normal. E nem tudo são espinhos. O bairro deixou de ser a vizinhança bucólica da minha infância para se tornar uma região elétrica, peculiar, interessante. Saber caminhar por seus escadões e vielas, encontrar um grafite que o tempo não apagou, isso me faz continuar amando a Vila Madalena, vivendo em paz com o fato de que as coisas mudam, sabendo que dá pra achar o caminho no meio das mudanças.

Alguns dos meus lugares preferidos na Vila.

1. A Ciclovia da Pedroso/Faria Lima
Esse trecho de pista para bicicletas está tecnicamente em Pinheiros, começa no Parque Vila Lobos e vai até a Cidade Jardim pela Faria Lima, mas é muito usado para ir e vir da Vila, que começa pra cima da Pedroso de Moraes. Dá pra usar o termo ciclovia com reservas: na área do Largo de Pinheiros a faixa já teve bancos de cimento e pontos de ônibus no caminho.

2. Las Magrelas (foto acima)
Não é fácil circular pelas ladeiras da Vila usando bicicleta. Admiro quem consegue. Há várias bicicletarias na região, mas essa é a mais charmosa, uma pequena oficina/loja/café/bar. UPDATE 2016: fechou

3. Sagarana
O Sagarana original fica na Vila Romana (também morei lá!) e a loja da esquina da Girasol com a Aspicuelta é uma bem-sucedida filial, com a mesma oferta virtualmente infitina de cachaças e cervejas. Eu curto mesmo por causa dos petiscos, em especial o peixe defumado. *** UPDATE 2015: abriu uma terceira casa, na mesma esquina, com chope.

4. Maya
A Maya na verdade é um restaurante familiar chamado Les Delices, mas que todo mundo trata pelo nome da proprietária e chefe. Fica na Mourato logo antes da ‘esquina da morte’ (a da Aspicuelta) e abriu em 2007 servindo bolos e vendendo congelados mas rapidamente se tornou um ponto disputado de almoço. A comida é honesta, o lugar é gostoso, mas a poucas mesas ficam lotadas rápido.

5. Casa do Mancha
Atrás do portão cinza numa ruela residencial no coração da Vila está um dos lugares mais legais pra beber e curtir música na cidade. Não tem agenda certa e o melhor jeito de saber quando ir é perguntando pra quem já foi – o que não é nada difícil, uma vez que o Mancha não está na categoria “coisa secreta”. Também vale bater no portão e pedir pra entrar, a galera é gente fina, a pretensão é zero, os drinks são fartos e a entrada é módicos dez reais. Escrevi sobre messe post.

6. AK Vila (na rua)
O AK é um restaurante muito bom, mas meio caro pro meu orçamento que nunca sai da categoria “budget”. Mas eles tem uma banca na rua que serve um sanduíche de ovo inacreditavelmente bom. É bem servido e custa apenas seis dilmas. *** UPDATE 2016: fechou.

7. Rothko Burger
Uma casa vermelha com pinta art-deco que toca proto-punk e faz um hamburguer sensacional. O Rothko é único e, infelizmente, anda meio vazio. Na verdade, esse post foi feito só pra me dar veículo pra divulgar a casa. De fim-de-semana tem brunch, a costelinha é sensacional e a salada Cobb (com bacon, ovo com gema mole e tomates) é provavelmente meu prato preferido na área toda. *** UPDATE 2015: o Rothko virou Goya e continua bom. *** UPDATE 2016: fechou

#VilaMadalena #StreetArt #SãoPaulo #011 #LPfanphoto

A photo posted by Gaía Passarelli (@gaiapassarelli) on

(foto da capa por Daniel Martins)