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Visões de Japantown

Japantown Boulevard GaiaPassarelli

Quando recebi o convite para ficar em Japantown, eu nem sabia direito que existia um bairro japonês em São Francisco. O começo da pesquisa também foi desanimador, já que pelas fotos o bairro parecia mais uma coleção de shopping malls e restaurantes para turistas com um monumento modernoso no meio. A curiosidade venceu muito por causa do meu amor pelo “bairro japonês” paulistano, a Liberdade. E acabei dando com a história da área por acaso: o capítulo de um livro que estava mofando no meu Kindle há mais de um ano. O livro em questão é o Cool Gray City of Love: 49 Views of San Francisco (recomendo com força: U$8 na Amazon).

Como o título indica, são 49 histórias diferentes da cidade, inspiradas pelas caminhadas do escritor Gary Kamiya (neto de japonês) em bairros de São Francisco. Com texto fácil, muita informação histórica e senso de humor, Kamiya nos leva ao grande terremoto de 1906, para dentro de mansões vitorianas que não existem mais, para os anos 60-70 em Haight-Ashbury. E para Japantown, que viu sua população desaparecer durante a Segunda Guerra Mundial, depois viu suas casas serem colocadas abaixo.

Mais sobre isso depois das fotos.

 

Japantown não é mais que um punhado de quarteirões entre o Fillmore e as colinas de Russian Hill. E ali é possível encontrar o que ainda existe da herança japonesa de São Francisco – que começou a chegar nos EUA em 1869 e montou ali área seu primeiro lar longe de casa.

Em 1940, antes do ataque dos japoneses a Pearl Harbour, mais de 5.000 japoneses e seus descendentes moravam em Japantown. O bairro tinha 200 lojas, 40 igrejas, 20 escolas, quatro casas de banho. Tudo isso foi abandonado repentina e forçadamente quando, em 1942, o Presidente Rooselvet obrigou a “realocação” de japoneses e seus descendentes em campos no interior do país. Cerca de 110.000 pessoas foram diretamente atingidas, incluindo o avô de Kamiya, transferido para o interior de Nevada.

“A remoção forçada dessas pessoas, a maioria cidadãos norte-americanos, é uma das grandes injustiças históricas dos EUA,” escreve Kamiya no capítulo “The Ghost House” (a casa fantasma). O sumiço da população quase da noite para o dia, abriu espaço para a chegada de famílias negras em busca de moradia e trabalho – essa “troca de gestão” daria origem ao Fillmore, a “Harlem of the West” (mas isso é outra boa história).

Com o fim da Segunda Guerra, a antiga Japantown se tornou um gueto super populoso de casas decrépitas. A solução que a cidade encontrou? Derrubar tudo e construir de novo. O projeto de “reurbanização” do fim da década de 1950 queria tornar o bairro aceitável para a São Francisco moderna do pós-Guerra – se possível instalando famílias brancas de classe média no lugar dos moradores originais. “A destruição da área foi uma mistura de racismo mascarado, ingenuidade, cobiça e otimismo tecnocrata. É o pecado capital de São Francisco e a cidade ainda vive com isso,” diz Kamiya.

A Japantown que você vê hoje, com suas casas de ramen e lojas de mangá, é uma sombra da comunidade próspera de antes da 2º Guerra. Mas é também uma sobrevivente orgulhosa. Andar por suas poucas, limpas e bem-cuidadas ruas é descobrir um pouco de história.

Leia também

Uma breve história de Japantown, no blog do MauOscar.
Onde comer em Japantown (colaboração minha para Viator BR).

 

** OBS **

Minhas duas noites na Japantown em São Francisco foram oferecidas pela Kimpton Hotels, representada no Brasil pela Press Pod. A empresa ou seus representantes não são de forma alguma responsáveis pelas opiniões emitidas aqui.