Portfólio, Prosa

Você sabe que é um brasileiro entre sul-americanos quando…

Publicado no BrasilPost.

1.Você é a única pessoa no seu grupo que não fala espanhol
Das coisas que separam os brasileiros dos outros sul-americanos nenhuma barreira é mais nítida que a língua. Nós temos até mesmo um (horroroso) dialeto específico para conversar com os vizinhos, o portunhol, perdoável apenas em emergências e guichês de imigração.

2. Você pede aguardente e ao invés de cachaça recebe uma coisa com gosto de anis.
Aguardiente não é sinônimo de cachaça. O nome serve para uma infinidade de destilados nas Américas Central e Sul, cada um com sabor e graduação alcoólica diferente.

3. Você sempre pensou no Paraguai como um lugar para comprar falsificações baratas e não um destino de aventura.
Brasileiros estão acostumados a cruzar a Ponte da Amizade para comprar eletrônicos, bebidas e pneus. São raros os que cruzam a fronteira esperando road trips no Chaco ou visitas à vilas de famílias de tradição menonita.

4. Todos os caminhos passam por Guarulhos.
Mesmo que você esteja viajando de Pernambuco para a Colômbia  ou do Mato Grosso para o Chile, a chance de ter que mudar de avião no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, é enorme. Como a vasta maioria dos grandes aeroportos do mundo, esse também fica longe de tudo, oferece pouco para fazer e vende qualquer coisa por um preço absurdo. Aquela cervejinha será provavelmente a mais cara da sua vida.

5. Seu conhecimento de música colombiana é limitado a Shakira.
E você ficou chocado de saber que os Los Del Rio (aqueles da Macarena) são… espanhóis!

6. Só você nunca visitou o Caribe.
O enorme litoral brasileiro fica todo no Atlântico Sul. O que significa que até podemos ter algumas das praias mais belas do mundo, mas nunca teremos as águas claras e praias paradisíacas do Caribe – ao contrário dos seus amigos venezuelanos ou equatorianos, que tem esse cenário no quintal de casa.

7. Você se pega perguntando se “banana da terra” é o mesmo que “plátano”.
Sim, é a mesma coisa. E se a banana-da-terra (uma variedade de banana maior, mais firme e largamente utilizada na cozinha da Venezuela e Colômbia) é usada no Brasil, por que nunca pensamos em fritar as mesmas em óleo quente e comer como chips? Aliás, a culinária sul-americana em geral é muito mais amiga dos celíacos do que a brasileira. Pense em arepas, pataconeschoclo com queso

8. Você aprende que ceviche não é igual em todo lugar.
Chile, Equador, Colômbia, México e ilhas da Polinésia tem suas próprias receitas. O peixe e temperos variam, mas a base é sempre peixe crú, cebolas e limão. O ceviche clássico é o peruano, tanto que no Peru o ceviche (que nunca se come no jantar) é patrimônio nacional. 

9. Você entende que “espanhol” serve para várias línguas diferentes.
O português brasileiro é radicalmente diferente quando falado no Amazonas ou no Paraná. E o mesmo acontece com o espanhol falado no Equador ou no Uruguai, na Colômbia ou na Bolívia. Há ainda os sotaques internos, como o porteño de Buenos Aires, o páisa de Medellin. O legal é que em qualquer lugar vale falar português devagarinho e se fazer entender (é melhor que portunhol, sempre). E o contrário também é verdade. Peça para seu interlocutor falar devagar e preste atenção. Muitas palavras são parecidas, os artigos normalmente são os mesmos, até a graça dos diminutivos é comum. 

10. Você tem empatia imediata com seus novos amigos latinos.
Nós sul-americanos não temos problemas com toques, abraços, beijos e demonstrações de afeto. E conforme a conversa caminha para história e política (sempre vai acontecer) fica mais fácil superar aquela sensação de que o Brasil é uma parte separada da América do Sul. Nossos países tem em comum uma história turbulenta de genocídio, escravidão e exploração. Nossas nações são jovens, instáveis, esperançosas. Temos muito a aprender uns com os outros.

PS: São Paulo vs Buenos Aires, já viu?