Tá Todo Mundo Tentando: andar com fé
É simples e aparece nas pequenas coisas: pontos que vêm na cabeça, o cheiro da defumação que aparece do nada.
Oi,
Antes de seguir com a edição de hoje: na próxima semana vou dar meu curso ABC da Newsletter na Escola de Conteúdo — são duas aulas (online) pensadas para quem já tem ou quer começar uma newsletter no Substack.
📅 24 e 26/02/2026, das 20h–21h30)
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A edição de hoje tem um texto sobre fé (e o que acontece quando a gente decide insistir, mesmo sem garantia de nada). Tem também a história da amizade de Bowie e John Lennon. E umas edições antigas da TTMT, lá no final.
Uma pessoa de fé
Ano que vem, celebro uma década de terreiro. Tô meio que adiantando a efeméride porque há fases em que a fé ocupa mais espaço que o normal na minha vida (como agora, começo de 2026). E também ando emocionada pelas muitas manifestações da espiritualidade afro-brasileira no Carnaval, algo que me parece que sempre existiu mas de tempos pra cá está mais acentuado - como deve ser.
E tem essa coisa toda de mudanças astrais e o Ano do Cavalo de Fogo - que delícia, cara, um ano de galope em chamas!
Enfim, há pouco menos de dez anos, eu estava tomando a decisão de voltar para o terreiro. Um terreiro. Qualquer terreiro. Estava orfã de espiritualidade. Eu morava na Bela Vista, e busquei no Google Maps: terreiros de umbanda perto de mim. Lembro com clareza de como o chamado veio forte. Para quem se pergunta “como é”: é simples e aparece nas pequenas coisas, nos pontos que vêm na cabeça, em certo cheiro de defumação que aparece do nada. E em sonhos, se você é de prestar atenção em sonho (eu sou). Lembro de como escolhi, coloquei o dia-hora na agenda, me preparei. De como saí de casa num final de tarde, sozinha, de roupa branca. Como fui a primeira pessoa a chegar na porta de um terreiro de umbanda na rua Major Diogo, na parte baixa do Bixiga. O terreiro existe, ainda, em outro endereço. E sou filha da mesma casa, ainda, por decisão própria, porque o livre arbítrio é um fundamento da umbanda. E às vezes mais perto e às vezes mais longe, sempre buscando minha função naquilo que a gente chama de corrente, porque outro fundamento da umbanda é o exercício de humildade no coletivo.
E não preciso dar explicação, mas dou: eu e minha irmã começamos a frequentar terreiro, como muitas pessoas no Brasil, levadas pela nossa mãe. Minha irmã se envolveu desde cedo, foi pro candomblé, é estudiosa, tem uma prática muito séria. Eu me afastei e voltei pra umbanda várias vezes - até que, como contei acima, entendi o recado e fui. Poderia ter seguido outros caminhos, mas escolhi a umbanda. E no dia do meu batismo, que é um ritual muito simples e bonito (como tudo o mais dessa tradição) minha Mãe de Santo disse: você pode desistir da umbanda, e do terreiro, mas a umbanda nunca vai desistir de você. Eu tava numa fase em que sentia que o mundo tinha desistido de mim. E ouvir que havia um lugar, uma prática, uma comunidade, uma corrente que não ia desistir de mim, ao mesmo tempo me manter livre para ser quem eu sou, como eu sou, no meu tempo, foi uma revelação.
Desde então, cultivar essa fé é uma escolha que renovo todos os dias. Fé não substitui tratamento de saúde (mas ajuda), nem substitui terapia (mas ajuda também). No trabalho espiritual, ouvi umas verdades doloridas e tive que olhar de frente para péssimos resultados cotidianos que eram consequências de más decisões que eram apenas minhas. Mas também tive ombro para chorar, afeto para receber. Existe uma irmandade dentro do terreiro, certo reconhecimento do que está zuado no outro, porque quase todo mundo chega pela dor. Tirando aqueles que crescem na religião desde pequenos, quem vai a um terreiro pela primeira vez normalmente está atrás de uma solução (“a arma secreta do brasileiro,” diz um amigo da minha mãe) para questões do coração, da cabeça, do corpo.
E os conselhos oferecidos, as respostas, se for uma boa casa, vão seguir na direção do “e o que você está fazendo para melhorar?”
Porque essa é a lição maior: a fé começa em si. O santo que entra é o santo que sai.





