Tá Todo Mundo Tentando: deslumbrar-se
29/05/2026 | Leia um trecho de "Deslumbre: histórias de obsessão musical" + mesa e autógrafos na Feira do Livro!
Na edição de hoje tem um convite para nos vermos na Feira do Livro (com as duas mesas em que vou participar!), um aviso rápido de que a newsletter entra em um breve recesso e volta à programação normal em 18/06, um trecho de Deslumbre: histórias de obsessão musical, que lancei na virada de 2025/26, com o lembrete para passar na feira e garantir um exemplar autografado, em mãos, o David Bowie da semana contando sobre quando o Bowie fez um show inesperado em Dublin e tocou drum’n’bass (com bootleg para ouvir inteiro!), mais a dica para conhecer e assinar a newsletter da Elle Brasil no Substack. Ufa!
O assunto mais importante do meu coraçãozinho hoje é que estarei na Feira do Livro, que começa nesse sábado, em duas mesas: domingo, 13h, falando sobre literatura de viagem com a Paula Carvalho no tablado, e terça, 19h, falando sobre a história da noite de São Paulo com o Camilo Rocha, no palco principal. Todas as informações, e outras boas conversas que vão rolar na feira, nesse link:
Antes de seguir: essa newsletter entrará em um breve recesso. Se você é recém-chegado, não estranhe, isso é algo que faço pelo menos duas vezes por ano, para refrescar as ideias. Volto com a programação normal na edição de 18/06. Se você é apoiador/a (obrigada!) não precisa fazer nada: essas duas semanas serão incluídas automaticamente no seu plano.
E, claro, você pode aproveitar para navegar pelo acervo da newsletter, com (literalmente) centenas de edições!
Deslumbre: leia um trecho
Quando me apaixonei por música eletrônica, primeiro me apaixonei pela música. Era uma coisa que sentia como minha, que pertencia à minha geração, uma geração que começava a usar computadores e que via na tecnologia uma promessa de futuro. Techno, house, drum’n’bass, trance eram mais do que música: eram culturas novas, acontecendo todos os dias.
Já tinha escutado bandas de EBM ou de uma eletrônica mais dark, como Alien Sex Fiend, Nitzer-Ebb, Poesie Noire, Trisomie21, Bomb the Bass, Einsturzende Neubaten. Além disso, medalhões como Kraftwerk, New Order e Depeche Mode eram terreno familiar. Muitas bandas do pós-punk haviam feito suas transições das guitarras para sintetizadores, e até o Sisters of Mercy usava uma bateria eletrônica. Como eu continuava sendo consumidora voraz de TV e mídia impressa, e continuava circulando nas galerias do Centro, também não me eram estranhos o mundo do hip-hop, do acid-jazz, do trip-hop – manifestações musicais que nos férteis anos 1990 estavam nas rádios e na MTV. O poperô de danceteria também: tudo eu sabia de ouvido.
A segunda coisa pela qual me apaixonei foram as pessoas. Talvez tenha me apaixonado pelo que a música fazia com elas, fazia conosco. Pelo sentimento de comunhão e entendimento total que a experiência de pista proporcionava – e às vezes ainda me proporciona. Tinha me apaixonado pela ideia de que estávamos todos juntos, batida a batida, madrugadas e dias adentro, sendo estupidamente felizes, querendo que todo mundo estivesse lá também, não querendo estar em nenhum outro lugar.
A terceira coisa pela qual eu me apaixonei foram as drogas, claro. E como. Tem que ser muito mentiroso para dizer que uma droga como o ecstasy daquela época é “ruim”. Era o oposto de ruim: era ótimo. Quando tomei ecstasy pela primeira vez, em Londres, fiquei entusiasmada. Mas quando tomei em São Paulo, nem questionei: era isso, e só isso, que eu queria que minha vida fosse a partir de então.
Minha viagem de adolescente classe média pela Europa acabou me rendendo muitas outras aventuras por Alemanha, Itália, Bélgica. Como acontece normalmente nas primeiras viagens de uma pessoa por outro mundo, eu voltei outra pessoa. Sabendo que era outra pessoa. Feliz de ser outra pessoa. Orgulhosa da jovem de cabelo vermelho curtinho e roupas abusadas que via no espelho. Eu sabia que tinha todo um mundo para explorar e que cada dia presa à minha vida anterior seria um dia perdido. Queria explorar a noite de São Paulo, encontrar algo parecido com o que tinha visto e experimentado na minha breve excursão europeia.
Não aconteceu de uma vez. Mas não foi difícil. E foi rápido.
Não levei nem um mês para fazer novas amizades, adotar um novo visual, novo comportamento, novo gosto musical e novos rituais. Encontrei ali o que antes me faltava: afeto, segurança, carinho físico. As pessoas se abraçavam, levavam água para quem estava dançando há muito tempo. Ao contrário da juventude perturbada do Retrô, as pessoas no Hell’s eram, no geral, um pouco mais velhas que eu. A turma tinha DJs, promoters, artistas visuais, fotógrafos, modelos, jornalistas. E também professores, redatores, médicos, estudantes. Gente que morava em apartamentos repartidos entre amigos, mas com porta e com chave. Me sentia segura numa turma de gays mais velhas que me tratavam como uma irmãzinha mais nova e meio maluca, como a Léia tinha falado: muito linda, muito simpática, espero te ver mais.
As madrugadas de sábado para domingo eram sagradas. Mas a rotina também envolvia noites de segunda ou terça tomando ecstasy no apartamento de alguém, uma coisa muito mais afetiva do que sexual: dançar na sala descalça, com pessoas que me abraçavam sem segundas intenções, me davam água, me cobriam com uma manta quando eu dormia, me traziam café da manhã e uma aspirina quando acordava, pediam para ligar avisando que tinha chegado bem em casa.
Um deslumbre inevitável.
Descontada a euforia e a capacidade dos frequentadores de dançar por horas a fio, o Hell’s Club tinha pouco a ver com o que vi em Londres. Para começar, era uma experiência musical e estética muito mais radical. A música eletrônica já tinha espaço em São Paulo, fosse nas casas abertamente gays como o Sra Krawitz, fosse nos clubes mais afastados do Centro, como a Toco e a Sound Factory, na zona leste paulistana. Mas o Hell’s propunha uma experiência techno extrema.
Abria às quatro da manhã e rolava nas madrugadas de sábado para domingo no subsolo do classudo Columbia, coladinho no 78º Distrito Policial. Ao contrário da Nation ou do Massivo, onde o culto à personalidade, numa experiência à Andy Warhol, fazia parte da cultura de pista, o Hell’s impunha um conceito totalmente focado na experiência musical. Era uma pista quadrada e escura, por onde se entrava após uma cortina grossa de veludo vermelho meio David Lynch. Havia um bar onde às vezes pingava água do único e insuficiente aparelho de ar-condicionado; um banheiro unissex sempre lotado; e um palco onde as pessoas subiam para sentar, respirar ou dançar com mais espaço. Não era lugar para ver e ser visto. Era para se entregar e dançar, de preferência batendo os pés com força no chão de madeira, no ritmo da música.
As hostesses Ana Gelfei e Roberta Hoffman davam o tom de antipatia do espaço, com pouca atenção para gastar com forasteiros – o que talvez tivesse mais a ver com o fato de lidar com a raspa do tacho da madrugada paulistana, já que ninguém que chegava ali estava na primeira parada da noite, e a vontade de ambas de estar na pista e não na porta.
Ao contrário do Retrô, que tinha sido um abrigo para jovens fora de época engajando com o que acreditavam ter o poder de conectá-los com o mundo, no Hell’s se celebrava o aqui-agora. O novo, em comportamento, estética, música. O que comecei vendo em Londres, aquilo que a Cami sua nova turma já sabiam que existia, o que estava vendo, ouvindo e dançando, era onde eu tinha que estar, onde podia me encaixar e o que queria viver. A juventude batendo no peito em 4x4, num volume digno de show do Motörhead, ritmado com o estrobo, temperado pela luz negra, rostos e corpos indistinguíveis na fumaça do cigarro e do gelo seco com cheiro de morango.
A trilha sonora era um idioma novo que a gente aprendia com o corpo antes de entender com a cabeça. No começo parecia ruído: camadas de batidas que não acabavam nunca, graves que atravessavam o estômago, melodias ora bonitas, ora agressivas, riscando o ar. Bastava estar alguns minutos na pista para perceber que aquilo não era só música: era uma estrutura psíquica, uma condução de energia.
Cada DJ tinha sua narrativa. O Mau Mau, por exemplo, era capaz de transformar a madrugada em uma viagem do Detroit techno mais seco até explosões de house luminoso, sem nunca perder o fio. O Renato Lopes vinha com grooves que lembravam funk e soul, mas estouravam em ácido, com 303 hipnóticas. Julião, Alfred, Gil Barbara, Guilherme M, cada um tinha seu estilo, seu feeling e seu case pesado de discos de vinil — ninguém tocava com CDs. Não havia letras, refrões ou conteúdos explícitos. A voz, quando aparecia, era uma textura ou uma mensagem, um pedaço de sample repetido. O que guiava era o compasso, o bumbo insistente que igualava todos os corpos no mesmo ritmo. Isso fazia a comunhão acontecer: uma batida para existir junto.
Na memória as músicas se confundem. Era Orbital, Underworld, LFO, Jeff Mills, Laurent Garnier, CJ Bolland, Underground Resistance, Robert Hood, Slam. Podia ser também um vinil com selo branco, sem capa, sem nome, apenas ruído, tensão e alívio. No começo, antes dos superstars DJs, o que importava não era o autor, mas o efeito. A trilha sonora era a euforia que mantinha a pista viva até a manhã seguinte.
E não estava acontecendo só aqui: o que vivíamos em São Paulo era simultâneo com Londres, Chicago, Paris, Berlim. Sabíamos disso porque não demorou para a cidade se tornar ponto de parada para DJs internacionais – algo que hoje parece banal, mas na época eram acontecimentos capazes de catalisar nossa atenção por semanas. No Hell’s, o francês Laurent Garnier e o escocês Stuart McMillan fizeram apresentações históricas – o primeiro por apresentar uma técnica impecável de discotecagem, misturando disco e funk com house, techno e drum’n’bass; o segundo por ter o set interrompido por uma batida policial que levou todo mundo, DJ e clubbers, para a delegacia vizinha.
E FOR EMPATHY
O ecstasy e a cultura club cresceram juntos. Nos Estados Unidos, a substância apareceu em pistas de dança nos anos 1980, mostrando que a combinação de música e MDMA criava um estado de comunhão coletiva. No final da década, quando a house de Chicago e o techno de Detroit atravessaram o Atlântico e se misturaram ao hedonismo europeu, encontraram no ecstasy o combustível emocional perfeito para longas noites e longos dias de música, dança e combustão cultural. Na Inglaterra, o “segundo verão do amor” explodiu em 1988: Manchester e Londres se tornaram polos globais da cultura rave, que ganhou o noticiário, despertando tanto a euforia de uma juventude que estava “high on hope” quando a fúria dos tabloides, que desde o auge do punk não encontravam motivo tão visível para assumir posturas francamente conservadoras.
A química da droga explicava parte dessa fusão: o MDMA reduz barreiras sociais, intensifica toda percepção física, inclusive tátil e auditiva, e, naquele contexto, tinha o enorme poder de transformar estranhos em aliados imediatos. As raves ilegais em galpões e campos ingleses, Castlemorton e Tribal Gathering, além de clubs como Shroom e Fabric, transformaram noites de festas em mitologia. Flyers coloridos com cogumelos e frases de efeito utópicas (“peace, love, unity, respect”) viraram o código estético. A polícia tentava reprimir, mas a cena se espalhava cada vez mais rápido, alimentada pela sensação de liberdade radical que misturava beats, suor e abraços suados.
Tecnicamente, o ecstasy é uma droga sintética cujo princípio ativo principal é o MDMA (3,4-metilenodioximetanfetamina). Ele age liberando e impedindo a recaptação de neurotransmissores como serotonina, dopamina e noradrenalina, criando o estado de euforia, empatia e intensificação dos sentidos que definia a experiência. O efeito começa cerca de meia hora após a ingestão, atinge o auge em torno de duas horas e dura de quatro a seis. A depender do ambiente de uso, quem toma sente euforia, empatia e intensificação das percepções sensoriais. Há uma sensação de bem-estar, maior sociabilidade e tendência a se conectar emocionalmente com outras pessoas, além de autoconfiança, menor defesa e maior interação social. Existe, claro, o risco de sofrer efeitos colaterais físicos e psíquicos potencialmente graves, especialmente com uso repetido ou em ambientes quentes e lotados. Mas ninguém estava pensando nisso - ainda.
No Brasil, a onda chegou em meados dos anos 1990, tomando o espaço da cocaína e do álcool em festas e clubs de São Paulo e do Rio e, depois, em raves em chácaras e praias do litoral paulista e no litoral da Bahia. DJs que viajavam para a Europa voltavam trazendo discos de vinil e relatos das cenas da Inglaterra e da Espanha, e com eles vinha também a circulação de ecstasy. No Hell’s, assumiu o mesmo papel que já tinha em Manchester e Ibiza: catalisava a comunhão coletiva, apagava fronteiras de gênero, raça e classe, e dava à noite paulistana uma euforia intensa e inédita.
Eu nunca soube como as pessoas conseguiam pastilhas, mas era facílimo descolar. Era um tipo de tráfico de drogas com boas intenções: quem vendia não tinha em foco fazer dinheiro. Existia uma ideia de que todo mundo tinha que tomar, porque todo mundo era candidato a participar desse novo momento, a entender a nova linguagem. A pista, alimentada pelas batidas, pela luz e por comprimidos com nomes como White Dove e Mitsubishi, era corpo, mente e alma de um novo jeito novo de existir.
Entendi e dancei até o sol ficar alto lá fora, uma semana sim e outra também. Passou-se um ano, depois dois, depois três. Eu estava fechada com a trinca: música, pessoas e droga perfeita.



📩 Terreno Estranho na Feira do Livro
A melhor forma de comprar o livro é direto com a editora. É o jeito mais bonito de apoiar o livro e quem faz ele existir, e ainda sair com um exemplar fresquinho, sem mistério, sem espera.
Caso você esteja em São Paulo, passa no estande da Terreno Estranho na Feira do Livro pra garantir o seu. Melhor ainda, se você puder participar da minha mesa com o Camilo Rocha, na terça às 19h, quando vamos fazer uma sessão de autógrafos conjunta. Aparece, folheia, troca uma ideia e leva o seu (com uma história para contar).
Se você não estiver em São Paulo (ou não for à feira!), pode comprar no site da editora ou encomendar na sua livraria preferida.
E obrigada 🙂Pra nós, isso faz toda diferença do mundo!
David Bowie da semana: quando Bowie pirou em drum’n’bass
Imagine que é maio de 1997, em Dublin, e você está apertado entre poucas centenas de fãs da Metalheadz num galpão abafado, quando quem sobe ao palco é David Bowie. Foi num evento assim, ao vivo, que Bowie testou a guinada eletrônica de Earthling — e ainda por cima para uma plateia formada por gente do drum’n’bass.
A história, recuperada em 2025 pela Crack Magazine, mistura boato com a sempre crescente mitologia do artista, contando que para entrar, era preciso ter ido à outra festa na noite anterior e, depois, ligar para um número impresso num flyer para descobrir o endereço - jovens,era meio assim que as raves operavam pré-internet, com papel, telefone e diz-que-diz.
Voltando a Dublin: Lá dentro, segundo o relato do produtor Mark Plati e do promoter Brian Spollen, o volume “chacoalhou o prédio” e derrubou placas do teto; a confusão atraiu bombeiros, polícia e até políticos locais.
O show, por um lado histórico e por outro praticamente sem registro oficial, teve cerca de 45 minutos de material em chave jungle/drum’n’bass, costurando faixas do que viria a ser Earthling, a músicas recentes e antigas, incluindo uma releitura de “Fame” e um cover de “Superman”, da Laurie Anderson. E, depois, um set digno de estádio, com “Heroes” e “The Jean Genie”
Foi um evento único. E, para Bowie, um teste de pista: como fazer sua própria canção pop sobreviver a 160 BPM, baixos elásticos e guitarras “turbocharged”.
Se quiser testar sua capacidade de nerdismo, você pode ouviro show inteiro no youtube
Lançado em fevereiro de 1997, Earthling foi o disco em que Bowie mais explicitamente encostou a mão na música eletrônica do período, mas como compositor e produtor, absorvendo o vocabulário do drum’n’bass e do industrial. A crítica da época se dividiu em termômetros bem opostos. Na norte-americana Rolling Stone, por exemplo. Mark Kemp chamou o álbum de “o melhor desde Scary Monsters” (1980), elogiando a combinação de “musical restraint and pop smarts” e a decisão de “deixar as canções contarem a história”, em contraste com o excesso conceitual de 1.Outside. Mas também registrou a ressalva de que o disco “não quebra nenhum terreno novo” e “carece de inovação” — um elogio com freio.
Do outro lado, a Melody Maker, na Inglaterra, colocou Earthling na categoria “melhor evitar” — sintoma de um ceticismo que rondou o projeto: de que o artista, aos 50 anos, estivesse “correndo atrás” do zeitgeist eletrônico. Esse tipo de crítica via os breakbeats como enxerto (batidas “coladas” em canções que já existiriam sem elas) e tratava a aproximação com o drum’n’bass mais como curiosidade do que território artístico genuíno. Era Bowie sendo Bowie, um radar cultural inigualável, ou um ícone envelhecido tentando parecer contemporâneo?
Com o distanciamento do tempo, a resposta hoje tende a ser mais generosa. Earthling passou por reavaliação crítica e ganhou o status de peça-chave da fase experimental dos anos 1990, um disco que capturou o “humor” de uma cultura pop em mutação (entre a angústia do rock industrial e a euforia do Brit Pop) sem abrir mão do que Bowie sempre soube fazer: refrões, personagens e tensão dramática.
O que em 1997 pode ter soado como oportunismo, hoje pode ser lido mais como uma curiosidade aplicada: um artista disposto a entrar na linguagem da eletrônica e dobrá-la às suas obsessões, uma coisa totalmente Bowie.
Ainda assim: Earthling figura entre meus menos-favoritos. Talvez porque o jungle/drum’n’bass, como som, tenha evoluído para algo profundamente sofisticado, numa categoria própria de inteligência técnica dentro do universo que chamamos de “música eletrônica”. Eu gostei de Earthling quando saiu, e ainda amo a capa com o casaco Union Jack criado pelo McQueen. Mas não é um disco que coloco pra tocar.
🔗 Saiba mais
“So loud it was shaking the ceiling tiles out”: The story of David Bowie’s secret 1997 drum ’n’ bass show (Crack Magazine, 2026)
David Bowie ‘Earthling’ : a re-evaluation of a lost classic (Louder Than War)
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