Tá Todo Mundo Tentando: a volta do ensaio (muito) pessoal
08/05/2026 | Quem quer arriscar escrever está concorrendo com megacelebidade fazendo publi de bet.
A edição de hoje tem um texto a partir de um podcast a partir de memórias, a história do Union Jack coat que o McQueen fez pro Bowie, dica uma de newsletter e uma chance de ganhar o Deslumbre autografado.
Mas tenho dois recados importantes antes de seguir.
Primeiro: quero fazer uma playlist da Tá Todo Mundo Tentando com você.
Me manda 1 música + 1 comentário curtinho explicando a escolha. Vou reunir as respostas e trazer na edição da próxima semana. Pode ser por mensagem, email ou comentário:
Segundo: SP Innovation Week no 30% de desconto
Pra quem tá em SP (ou vem pra cá): na próxima semana, entre 13 a 15 de maio, a São Paulo Innovation Week 2026 acontece na Arena Pacaembu e na FAAP. Serão três dias de conferências, painéis, workshops, experiências e encontros de negócios, com trilhas temáticas ligadas à tecnologia, negócios e criatividade.
Na Trilha de Economia Criativa, destaque absoluto pro cineasta e produtor Spike Jonze, que fala no dia 14/05, às 14h30. A extensa programação tem ainda o escritor e documentarista Douglas Rushkoff, que estuda a autonomia humana na era digital, e Ailton Krenak, Marcelo Gleiser, Rebeca Goldstein, Tatiana Coelho de Sampaio, José Eduardo Agualusa e Camila Appel.
Os ingressos diários custam a partir de R$450 e dá paragarantir o passaporte com 30% de desconto com o cupom para assinantes da newsletter
📩 Promo : assine um ano da newsletter e ganhe um livro autografado!
Fazer duas edições de newsletter por semana durante cinco anos não é fácil e, para comemorar o aniversário desse boteco, tô oferecendo um presente para quem é leal ao projeto:
Quem assinar (ou migrar a assinatura) pro plano anual do TTMT pagando via Pix, ganha uma edição autografada de DESLUMBRE: Histórias de Obsessão Musical, recém-publicado pela Terreno Estranho 💌
Infos
R$ 165 no plano anual 2026 (em vez de R$ 200)
Pagamento via Pix, válido somente para o plano anual
Livro autografado enviado pelo correio
Quer? Yes!
Me manda DM (ou comenta “quero” + seu email) que eu respondo com chave Pix + o passo a passo.
E obrigada 🙂
O retorno do ensaio (muito) pessoal
Amei esse episódio do podcast In Case You Missed It, da Slate:
Para quem cresceu na internet dos anos 00/10, com sites de ensaios (muito) pessoais como Jezebel, xoJane, Refinery29 e tantos outros, é uma delícia de conversa, que faz graça (mas leva a sério) o momento em que pareceu uma ótima ideia falar sobre os próprios pêlos encravados na virilha, com nome e email, para todo mundo, no mundo todo.
O que deu errado? E, se todo mundo continua falando demais na internet, por que parece tão diferente agora?
As hosts Kate e Lindsey partem de uma constatação simples: o ensaio pessoal, que andou meio demodé depois do auge dos anos 2010, voltou a circular com força, puxado por um renascimento do memoir, o livro de memórias, como o novo da Lena Dunham (que eu devorei após fazer um rewatch das seis temporadas de Girls — assunto pra outra hora) e obras confessionais como Strangers: Memoir of a Marriage (Belle Burden, sobre o fim repentino de um casamento longo, e Adult Braces (da escritora Lindy West, sobre seu fundo do poço pessoal e uma viagem solo pra tentar se reencontrar). E segue vivo em sites tipo The Cut, e em incontáveis Substacks que entenderam que ainda existe apetite por confissões bem editadas com “gancho” narrativo.
Só que o contexto onde essas confissões todas caem mudou muito, é claro. Portanto, o gênero volta com outra voltagem: no lugar da energia caótica de todo mundo lendo junto, ora rindo, ora brigando no Twitter, o ensaio pessoal de hoje tende a virar um gatilho de pânico moral (“isso não pode ser publicado!”) que resulta numa uma caça ao autor/a que está confessando o inconfessável ou uma tentativa de “intervenção comunitária” na vida de alguém que o texto transformou em vizinho - afinal, estamos todos numa mesma vila global, com acesso a todo tipo de informação pessoal alheia.
Em outras palavras: o ensaio volta, mas o “público” que ele pressupunha, curioso mas em alguma medida cínico e distante foi substituído por um público que se sente parte do acontecimento e, portanto se sente no direito (ou no dever) de agir, de mostrar que é contra ou a favor de algo, usar a experiência do outro para mostrar quem é - afinal, a performance é o fator crucial da nossa experiência da vida digital hoje.
Concordo com a conclusão das podcasters, que não foi exatamente o ensaio pessoal que “piorou”. O que degringolou foi o ecossistema ao redor: os incentivos, as plataformas, a relação entre intimidade e recompensa, e a sensação de separação entre “internet” e “vida real”.
Pandemia, redes sociais, IA: tudo entra, de alguma forma, nesse bolo da ideia do fim de uma distância que deveria existir entre o que é um “conteúdo” e o que é um “acontecimento”
Há vinte anos, dava pra ler um “I was X, aconteceu Y, aprendi Z” como quem assiste a um reality com um mínimo de proteção: aquilo estava “na internet”, num lugar meio menos real.
Hoje, a leitura acontece num ambiente em que as fronteira riuram. Quando uma pessoa comenta a reação a um ensaio anônimo que confessa o inconfessável (rolou recentemente no The Cut: a mulher que, depois de ter filhos, passa a negligenciar o gato da casa), o que pega não é só a discórdia; é a escalada para “vamos identificar essa pessoa! e reportar! ela tem que perder o emprego!”
O ensaio deixa de ser um artefato narrativo e vira um indício tanto da falência moral do outro quanto da nossa própria superioridade. Um sinal de que existe um problema real, em curso, e de que alguém precisa fazer algo.
A conversa também marca um turning point pós-2016: contar uma história deixou de ser suficiente; a audiência pede um enquadramento político e moral.
Entra então a pergunta: quem está contando essa história? Qual é a política de quem narra? Que lugar social essa pessoa ocupa? Qual responsabilidade ela tem? De que responsabilidade está fugindo? As respostas podem ser reais ou inventadas e chamar de “cultura do cancelamento” é simplista, porque o que acontece é uma transformação do modo de leitura.
O ensaio pessoal no sentido de contar uma experiência (e, me acompanhe aqui: ninguém quer ler sobe como você é legal, as pessoas querem no mínimo bons conflitos para acompanhar) passa a ser avaliado como evidência de caráter, com risco social para quem lê e risco reputacional para quem escreve.
Nos anos 2010, o “boom” do ensaio pessoal era parte de um arranjo simples e claro, mas meio perverso: sites pagavam pouco em troca de tráfego e para o autor a vantagem era a possibilidade de construir portfólio em cima disso, gerar links e provar sua capacidade de atrair leitores. A Jia Tolentino fez carreira assim. A Anne Helen Peterssen, também.
Elas evoluíram para ensaistas/analistas culturais com enorme capacidade de articulação de pensamento (a Tolentino escreve pra New Yorker e é best seller, a Peterssen criou uma plataforma de conteúdo bem-sucedida) e começaram arriscando seus nomes e ideias em uma internet ainda meio sem lei.
Arrisco dizer que o cenário hoje simplesmente não permite que isso aconteça. Primeiro que existem poucos sites. Segundo que quem quer arriscar escrever está concorrendo com megacelebidade fazendo publi de bet.
Terceiro, e talvez mais importante, que hoje existe um mercado paralelo de confissão “de graça” em vídeo (TikTok, YouTube, Reels), que acostumou a audiência a uma intimidade falsa, forçada e constante. Pra quê alguém vai assinar seu Substack confessional se tem um monte de maluco falando de graça pra te fazer companhia?
Além disso, a gente não vive mais a unanimidade de um Twitter como praça pública. O debate migrou pra subcomunidades, grupos de zap, plataformas nichadas, o que tem o curioso efeito de fazer com que não exista mais um “centro” onde essas leituras se espalham e organizam: cada bolha pode reagir de modo mais radical, sem o contrapeso do “todo mundo vendo junto” (e da vergonha pública de exagerar). A indignação circula rápido e em ambientes onde ela tende a ser recompensada.
Nesse cenário, a Lena Dunham é o termômetro definitivo: ela veio do auge confessional dos anos 2010, passou pelo arco completo do backlash e ressurgiu com um livro de memórias profundamente confessional, tentando operar num contrato novo: mais consciente do risco, mais cuidadoso com o que deve ao leitor, ainda assim disposto a se expor. E com uma tremenda divulgação a partir do Substack.
Porque hoje é isso que está em jogo: o ato de contar algo profundamente pessoal pode até estar de volta, em Substacks e video-essays com três horas de duração, mas quem conta vai ter que aprender a coexistir com tudo o mais, sem a proteção daquela praça pública única — e nós, como público, teremos que decidir se queremos ler gente de verdade (com suas contradições) ou usar a intimidade alheia como combustível para nossas indignações seletivas.
David Bowie da semana: Bowie + McQueen
Não é surpresa pra ninguém que David Bowie tenha deixado deixou todo um legado de imagens incríveis e looks impactantes.
Os mais lembrados são os dos anos 1970: o raio no rosto na capa de Aladdin Sane, a pose na capa de “Heroes”, o Thin White Duke, o cabelo laranja espetado do Ziggy Stardust.
Mas essa criação de estéticas foi uma constante ao longo de toda a carreira de Bowie e teve, nos anos 1990, outro grande momento, dessa vez em parceria com Alexander McQueen, então infant terrible da moda britânica:
Um pouco de contexto: a Union Jack, nome dado à bandeira do Reino Unido, foi muito usada no contexto do “Cool Britannia” nos anos 1990, tanto como produto de exportação quanto como certa ironia orgulhosa. Isso porque, nesse momento de revival cultural pós-Thatcher, o Reino Unido reaprendeu a vender seu “britishness” através de britpop, New Labour, Spice Girls, Austin Powers — era um patriotismo meio brincalhão, meio defensivo, que parecia dizer “sim, ser inglês é muito cool, mas relaxa, é só estética”.
Consequentemente, a bandeira mudou de lugar e voltou à moda. Ela já tinha sido sequestrada (e cuspida de volta) pelo punk nos anos 1970 e, nos 1990, reaparece em editoriais de moda, capas de revistas e palcos de bandas. Na moda, Vivienne Westwood carrega a ironia punk (rasgos, alfinetes, sátira antiestablishment), John Galliano romanceia a herança britânica com teatralidade e luxo e Alexander McQueen, por sua vez, faz a versão gótica e desconstruída, com uma bandeira decadente.
É nesse pano de fundo que aparece um objeto perfeito: o Union Jack coat que Alexander McQueen fez para David Bowie em 1996. A história, do jeito que costuma circular, conta que Bowie teria procurado McQueen depois de ler sobre o designer na imprensa britânica, quando ele ainda estava começando. As medidas teriam sido passadas por telefone. E o casaco nasce literalmente de uma bandeira — com punhos de renda preta e um acabamento propositalmente puído, como se tivesse atravessado uma guerra - o que vale tanto para o momento de renascimento noventista e eletrônico de Bowie após fracassos criativos, quanto para a renascença cultural britânica.
De quem foi a ideia?
Pelo que se repete nas fontes, a iniciativa de chamar McQueen teria sido do Bowie — precisava de figurinos com presença, peças grandes, quase “armaduras” para a tour de Earthling, álbum drum’n’bass de 1997 (nota pessoal: é um dos discos que não gosto, mas vamos voltar a ele em algum momento). Mas o salto criativo específico, de transformar a bandeira em casaco detonado, de alta costura com cara de resto, costuma ser atribuído ao McQueen.
O interessante é que o casaco funciona em dois níveis ao mesmo tempo. No micro, ele é roupa de turnê, peça de imagem, material de capa — uma espécie de assinatura visual para um Bowie em fase de reinvenção. No macro, ele é “Cool Britannia” em estado puro: a bandeira como símbolo reciclável, disponível para ser remixado, vendido e criticado simultaneamente.
Hoje, o destino do casaco confirma o status de relíquia: ele integra o David Bowie Archive em exibição no Victoria & Albert Museum em Londres desde 2023, e aparece recorrentemente como um dos itens mais visitados do acervo.
🔗 Saiba mais
David Bowie, Alexander McQueen, and the Making of That Iconic 90s-Era Union Jack Coat In the mid-90s (Vanit Fair, 1996)
Frockcoat, shirt and trousers designed by David Bowie and Alexander McQueen for Outside and Earthling, 1996 (Victoria & Albert Museum)
💌Newsletter amiga da semana: Bicho Feroz
Amei um tanto essa edição da newsletter da Camila Paier em que ela fala sobre andar no centro da cidade - seja Porto Alegre, seja São Paulo:
O centro de São Paulo em que cresci (às vezes em bando, às vezes sozinha) entre fliperamas e espetinhos de gato, é muito parecido com o de hoje na cacofonia urbana, na miséria visível, no vai e vem de gente apressada. Mas não parece em nada depois que fica de noite, com turistas perfumados e bem vestidos, vindos de bairros tipo Pinheiros ou Moema - sempre de carro, claro, porque pra quem não sabe como andar no Centro, o Centro sempre vai parecer “perigoso”.
Que continue assim.
📱 Participe!
Se algo cruzou seu caminho esta semana e você pensou “isso tem a ver com a Tá Todo Mundo Tentando!” pode me escrever sugerindo: para falar comigo, é só responder este email ou deixar um comentário:
👁️Veja também
Tá Todo Mundo Tentando: ler mais
A edição de hoje, no dia seguinte ao Dia Mundial do Livro (que é em 23/04 pq a data marca a morte de Shakeaspeare, Cervantes e o peruano Inca Garcilaso de la Vega), lembra que a leitura é um porto seguro, sim, e pode ser meta ou performance, mas é principalmente um hábito. Um bom hábito. Tem também uma promo para ganhar meu livro com autógrafo e dedicat…
Tá Todo Mundo Tentando: ser original
Um convite rápido antes de entrar no tema de hoje: a Beet Mag, revista impressa da Beet House (a agência onde eu trabalho (sou diretora de conteúdo para projetos especiais) e por onde assino a Beet/nick) está disponível para download em PDF.
Tá Todo Mundo Tentando: podar
Oi, Eu costumo olhar para o acervo da newsletter - literalmente centenas de textos, alguns ótimos, alguns péssimos - e ao qual você, como pessoa apoiadora do projeto, tem acesso:



















Te mando a indicação da música no zap... E que saudade do mundinho blogs com ensaios pessoais engraçados e pouco orgulhosos. Foi bom ter visto e vivido aquilo!