Tá Todo Mundo Tentando: recomeçar
Tentativa nº 1 de 2026. Não é o caminho mais rápido, nem o mais visível — mas é o que, provavelmente, vai funcionar no longo prazo.
Oi,
Janeiro costuma vir com alguma promessa de recomeço. Não raro até no plural: recomeços. Mas nem todo começo é um reset e, apesar de admirar essa coisa da grande celebração simbólica global, sei que nem todo começo de ano precisa vir acompanhado de metas e promessas de grandes feitos (mas se quiser, pode). Às vezes, o que está aí é a continuação de algo que já vinha sendo feito, com a chance de fazer melhor. Por aqui, comecei meu ano nessa pegada: cuidando direitinho das coisas que plantei. Porque tudo que a gente cuida, cresce.
A edição de hoje tem um ensaio sobre começar de novo sem apagar o caminho feito, a obra final do Bowie, ignorância seletiva e cupom de 25% de desconto para quem quiser receber o Guia Paulicéia/Tá Todo Mundo Tentando o ano todo:
Quem lê a TTMT?
“É um conteúdo envolvente e fácil de ler, ao mesmo tempo, em que traz detalhes e uma narrativa bem construída — esse equilíbrio torna os textos parte do nosso dia a dia, como se fossem alguém que a gente conversa com frequência.”
Deborah Morais, Belo Horizonte/MG, apoiadora
Começar de novo
Um começo de ano costuma vir carregado de promessas: metas, listas, ideias. Mas existe um jeito de entrar no tempo quando as coisas começam que não requer reinventar tudo. Chama retomar. Dar atenção para aquilo que já vem sendo plantado, sustentar o processo do que já existe. Começar de novo, nesse sentido, significa escolher continuar de forma mais consciente do terreno que se habita, do clima onde se viva, dos ritmos da realidade imposta.
As coisas, elas mudam.
Quando você faz algo por muito tempo, acaba mudando alguma coisa. 2016 marca, pra mim, dez anos do meu primeiro livro. Ou seja, há dez anos eu já estava escrevendo muito. São mais de dez anos insistindo em uma mesma prática. Olhar pra isso revela padrões que só existem no longo prazo: ciclos de entusiasmo e exaustão, momentos de clareza e de questionamentos, fases de expansão e de recolhimento. Eras em que amei tudo que fiz, eras em que me detestei com força.
Habita aqui a diferença entre começar e recomeçar: no começo, tudo é impulso. No recomeço, há a memória da experiência acumulada (e, também, menos ilusão de controle).
Montaigne entendia seus ensaios assim: tentativas. Essais — tentativas. Textos que não se propõem a encerrar um pensamento, mas a colocá-lo em movimento. Uma forma de descobrir o que se pensa enquanto se pensa:
“Writing is how I take the fleeting vapors of my thoughts and solidify them into definite form. Unless I write down what I’m thinking, I can’t even be sure what I think.”
Há algo de libertador nisso do ensaio não precisa vencer debates, oferecer soluções, mas existe para organizar o pensamento, testar ideias, observar as próprias contradições. Afinal, como o próprio Montaigne (também) escreveu, “sentamos no mais alto trono do mundo, e ainda assim sentamos apenas sobre o nosso próprio rabo”. Se toda grande certeza carrega algo de ridículo; toda reflexão honesta também começa reconhecendo seus limites. Escrever assim — como tentativa — exige espaço.
Por isso a escrita sempre funciona, para muita gente, num exercício constante de resistência. O texto do crisdias sobre blogs no Boa Noite Internet toca nesse ponto: escrever fora da lógica da otimização, sem botão de curtir, sem a pressão do desempenho. Valorizar a prática do blog por diversão, o blog por prazer, o blog moleque - lembra disso? Era legal. A gente fazia porque gostava de fazer. O Cris falou de blog, mas vale para newsletter, video essay, onde quer que seja um lugar mais de pensamento do que de validação.
Pensamento precisa de atrito, de retorno, de amadurecimento. Planejar, nesse contexto, não é correr atrás do próximo formato, mas criar condições para continuar escrevendo, pensando e publicando — mesmo quando o mundo te exige velocidade, simplificação, hot takes sobre o que quer que seja o assunto da hora, ruído, muito ruído.
Isso se conecta diretamente ao que a Lulu Cheng Meservey chama de narrative alpha nessa edição da flak em um ambiente saturado de conteúdo artificial, a diferença vem do que é real. Fazer coisas reais, com esforço real, ao longo de meses e anos, criando algo que deixe vestígios no mundo que vão além de impressões efêmeras. Não é o caminho mais rápido, nem o mais visível — mas é o que, provavelmente, vai te fazer feliz no longo prazo.
E precisa ser recomeçado sempre.
Há obrigações, mas não garantias, é claro. Planejar não impede fracasso, plantar não assegura colheita. Há livros que funcionam, livros que não funcionam. Projetos que encontram leitores, outros que passam despercebidos. Mas o valor não está apenas no resultado isolado, mas está na continuidade do gesto.
Entro em 2026 desse jeito: sem promessas externas e muito comprometida comigo. É o que me parece mais honesto. Planejar como quem cuida. Escrever como quem pensa. Continuar tentando.

David Bowie da semana: Blackstar
Em 2026, ano que marca uma década da morte de David Bowie, este espaço semanal acompanha seu legado com um recorte diferente por edição para atravessar, aos poucos, o arquivo virtualmente infinito de assuntos que ele deixou aqui na Terra. Falei mais sobre esse projeto na Zeladoria de 09/01.
Hoje, vamos de Blackstar, a obra final. Lançado em 08/01/2016, dois dias antes da morte de Bowie, é (corretamente) como um álbum de despedida pela forma como organiza imagens de fim, transição e transformação.
A estrela negra, presente no título, na capa e nos videoclipes, aparece como marca de um encerramento em que tudo é pensado ao redor de signos de passagem e deslocamento. O resultado é uma obra musicalmente diferente do antecessor The Next Day, com experimentações jazzísticas e guitarras. E, visualmente, cheia de detalhes:
Essa leitura final ganhou dimensão literal ainda em janeiro de 2016, quando astrônomos belgas anunciaram o registro de uma constelação em homenagem ao artista. Localizado na região celeste próxima a Marte, o conjunto é formado por sete estrelas dispostas no formato do icônico raio sobre o rosto de Bowie (da fotografia de Brian Duggy na capa de Alladin Sane).
O projeto foi realizado em parceria pela rádio belga Studio Brussel e pelo observatório público MIRA, e registrado no momento exato da morte do artista. Segundo Philippe Mollet, do MIRA Observatory, a escolha das estrelas levou em conta referências recorrentes na obra de Bowie ao espaço e ao universo — de “Space Oddity” a “Starman”, passando por “Life on Mars” e pela persona de Ziggy Stardust.
A constelação integra o projeto Stardust for Bowie, que permitiu que fãs adicionem músicas e mensagens a uma versão virtual do céu via Google Sky.
🔗 Saiba mais
Music Non Stop: análise de Blackstar e seus significados
David Bowie: astronomers give the Starman his own constellation (The Guardian, 2016)
David Bowie ‘constellation’ – a stellar hoax? (The Conversation, 2016)
Newsletter amiga da semana: Marmitex
Uma das leituras mais lúcidas desse começo de ano no Substack vem do Paulo Emediato | Marmitex na sua newsletter. O conselho é simples: aprender a ignorar seletivamente é uma habilidade fundamental para o bem-estar psíquico.
A ideia se conecta ao conceito de critical ignoring, discutido por Christopher Mims em artigo recente no Wall Street Journal. Em vez de aplicar pensamento crítico a tudo (o que hoje significa desperdiçar energia com lixo informacional), a ideia é saber filtrar cedo: avaliar fonte, contexto e intenção antes de investir atenção.
Num ambiente saturado por hot takes apressados, AI slop e opiniões horríveis embaladas para engajamento (lembra quando o problema era só “fake news”? saudades, bons tempos) a atenção virou recurso finito.
Ignorar criticamente é questão de defesa cognitiva. Então em 2026 aprenda onde não colocar energia mental.
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