Tá Todo Mundo Tentando: o terceiro lugar
13/03/2026: o "regular maxxing" tem a profundidade de hashtag de Tiktok, mas também tem um diagnóstico escondido.
Oi,
Antes de ir para as dicas: na próxima terça, 17/03, tem turma nova do meu Substack 101 — uma aula para quem quer começar (ou destravar) uma newsletter na plataforma, aprendendo como as coisas funcionam na plataforma.
O que você encontra nessa edição: ensaio sobre “third spaces”, o filme flopado do Bowie, cupons de desconto para o saldão da Insider, dica de filme na Mubi, a nova casa do Museu da Casa Brasileira e uma reportagem que explica pq livros fazem (sim!) bem pra cabeça.
Ser local
Eu caminho muito pelo meu bairro. Mais na rotina de realizar pequenas coisas banais, tipo comprar produtos de limpeza, do que a prática de flanar (inclusive: saudades). Faço tudo a pé. Já tem mais de uma década que deixei de ser carro-dependente e escolhi morar num pedaço onde possa me resolver dando passos (e usando transporte público, outra prioridade).
Nessas pequenas coisas, aquilo que estadunidenses chamam de “running errands”, às vezes observo que certos lugares são um tipo de extensão de casa, talvez até do corpo, no sentido mais concreto mesmo: lugares que fazem parte do nosso funcionamento.
Uma parte grande do meu gostar de morar onde moro não tem a ver com o apartamento (mas, sim, meu prédio é lindo) nem com a vista (nem tudo é perfeito: a janela do meu quarto dá prum estacionamento e pros fundos do prédio vizinho), tampouco com a praticidade dos trajetos.
Tem a ver com o que existe entre meu apartamento e o resto do mundo. As rotas repetidas. O café onde vou quase todos os dias e sento sempre na mesma mesa. O mercado onde as senhoras que trabalham nos caixas me conhecem pelo nome. O pê-éfe da minha esquina onde o pessoal sabe que gosto de bife de fígado. A banca de frutas, a sorveteria, a banca de jornal, a loja de plantas, os vizinhos e suas crianças e seus cachorros - detalhes dos trajetos que formam a continuidade do cotidiano. Aquilo que você perde quando para de andar na rua.
Gosto do meu bairro porque, nele, consigo ser uma pessoa inteira com menos esforços.
Outro dia, na Galáxia (favoritíssima da casa), esbarrei nesse termo meio bobo: regular maxxing. Um nome gringo pomposo probom e velho conceito de vizinhança. A ideia é que ao invés de correr atrás da novidade (o novo restaurante, o novo hype, o novo rolê), você “maximiza” sua vida sendo cliente fiel de poucos lugares, valorizando profundidade em vez de variedade.
Tem a profundidade de hashtag de Tiktok, mas também tem um diagnóstico escondido aí: a trend de estarmos exaustos de uma cultura que nos empurra o novo o tempo inteiro, como se novo fosse sinônimo de melhor.
Além disso, pelo menos na minha bolha, parece que geral tá com menos paciência para ser consumidor full time, a pessoa que passa, compra, avalia, some, compra de novo, valoriza algoritmo porque dá dica de mais coisa pra comprar, a pessoa cuja personalidade é definida pela fatura de cartão.
Porque é isso que muda quando você vira “regular”: a relação com o espaço pode deixar de ser utilitária e ganhar contornos de pertencimento. Um lugar que não é a sua casa e não é o seu trabalho, mas que segura um pedaço da sua vida. Pro pessoal do bairro que se encontra todos os finais de tarde aqui na minha quadra, é a mesinha do boteco.
O nome clássico pra isso na sociologia é “terceiro lugar” (na gringa: third spaces). Terceiros lugares são os espaços entre o primeiro lugar (casa) e o segundo (trabalho), que não têm uma função rígida até que as pessoas cheguem e preencham com seus sentidos. Podem ser livrarias, bibliotecas, cafés, parques, bares. A sociologia chama de “cola das comunidades”, porque é fora do espaço privado que o estranho vira vizinho.
E isso é uma coisa tão simples, tão pequena, tão comum em tantas partes do mundo, e tão rara em certas parte de uma cidade como São Paulo, onde a gente aprende a se proteger de tudo: do trânsito, do assalto, do golpe, do flerte errado, do encontro inconveniente, do contato.
A cidade grande é uma máquina de moer gente e também de tornar o outro invisível. A gente treina o olhar para passar por rostos como paisagens de fundo. E aí, às vezes, existem lugares que te fazem (delicadamente) lembrar que as pessoas existem, com suas responsabilidades e rotinas. Porque nesses pequenos comércios, não é só quem trabalha que lembra do meu rosto, eu também lembro do rosto de quem trabalha ali. É assim que a gente entende (lembra?) que a vida do outro está acontecendo em paralelo à nossa. Um reconhecimento que, em tempos de solidão altamente produzida, pode até ser uma forma modesta de salvação.
Penso que a biblioteca pode ser um símbolo perfeito dessa ideia. Eu mesma não frequento biblioteca com a frequência que gostaria - mas tenho fases, já contei aqui. Amo biblioteca pela gratuidade e pela quietude. Biblioteca é um dos últimos lugares na vida moderna onde você pode existir sem pagar. Ela não te pede nem empurra nada, e só te expulsa na hora de fechar. Você pode ficar horas com um livro do acervo, ou um livro que você levou de casa, ou com outra coisa, ou com nada. Pode observar gente, ouvir pedaços de conversas (sempre baixas, porque a trilha sonora de uma biblioteca é o silêncio).
Bibliotecas existem para ser, e não para comprar, o que hoje é uma ideia radical, quase subversiva. Porque o mundo, do jeito que está organizado, fica o tempo todo querendo nos convencer de que existir é uma transação monetária contínua: você entra, consome, sai. Você ocupa o espaço desde que você compre. Você merece um assento se tiver um pedido. Você é o que você compra. Até o descanso depende de produto.
De volta aos comércios locais, seja de um senhorzinho resistente (a loja de ferragens da Martin Francisco) seja de empreendedores meio idealistas (o clássico Kraut, na Barão de Tatuí), eles são uma espécie de terceiro lugar possível dentro do capitalismo real. Têm certa margem humana.
Tem uma frase da Rebecca Solnit que conversa com isso: “emergências frequentemente produzem vínculos sociais que as pessoas nem sabiam que eram capazes de criar”. A pandemia foi um laboratório bizarro disso. Em 2020, quando a Itália entrou em lockdown, sem praças nem cafés, alguns italianos resistiram cantando nas janelas. Estranhos harmonizaram por ruas vazias, transformaram sua sacadas em terceiros lugares.
Se a humanidade sempre dá um jeito de se conectar; a pergunta é como a gente desenha as cidades (e financia as bibliotecas) para facilitar essa conexão mais do que os traslados de carro. É uma pergunta preciosa porque muda o foco do indivíduo para o mundo.
E aqui eu volto pro meu bairro. Não acho que minha cidade devia virar uma vila. Gosto da cidade grande, de seus excessos, do anonimato que me protege. Mas também desejo um antídoto específico: um cotidiano onde eu não seja só consumidora de serviços.
Claro que isso soa privilégio classe média — “ai, a linda frequenta café do bairro”. Mas é essa a diferença entre sobreviver e morar, ocupar e habitar, o bairro como cenário e o bairro como comunidade. Não acontece com aplicativo, não acontece com review no Google Maps. Acontece com repetição, previsibilidade e certo compromisso sem contrato.
De volta ao regular maxxing: é sintomático. A parte engraçada é o nome, transformar um hábito normal em performance, inventando (mais) uma métrica, (mais) um jogo. A parte triste é precisar de palavras novas pra justificar uma coisa comum: voltar aos mesmos lugares, criar laços, ter rotinas, fazer parte. Pertencer não pode ser luxo nem extravagância.
É ridículo que dizer “eu gosto do meu café de sempre” ganhe um verniz de tendência para parecer legítimo.
E também porque porque muitos “terceiros lugares” são os “segundos lugares” de alguém: gente trabalhando. O terceiro espaço de alguém é o segundo espaço de outra pessoa. É preciso honrar quem cria e serve os espaços que nos nutrem. Garantir que essas pessoas recebam o mesmo cuidado que elas dão. O vínculo não pode ser só do lado de quem consome.
A comunidade não pode ser uma estética, precisa ser uma ética.
Seu terceiro lugar pode ser uma praça, um bar, uma academia, uma banca, uma igreja, uma biblioteca, um terreiro, um boteco. Qualquer lugar que te permite existir. Algo que, no mundo de hoje, é mais raro do que parece.
E é por isso que importa.
🔗 Leia mais
Third places, true citizen spaces (Unesco)

David Bowie da Semana: um hit e um flop
Recentemente, a editora Simon and Schuster divulgou lançamento de um novo livro sobre a vida e obra do Bowie. Lazarus: The Second Coming of David Bowie, de Alexander Larman, se difere dos outras tantas biografias porque foca em um período pouco brilhante da carreira do artista, depois do mega sucesso de Let’s Dance. É um lembrete sadio de que mesmo os gênios têm seus momentos não lá muito geniais - como atestam álbuns como Tonight, Never Let Me Down e, sinto dizer*, o Earthling* também.
E é mais ou menos nesse contexto que aparece Absolute Beginners. Não a música, mas o filme de 1986:
Dirigido por Julien Temple (The Filth and The Fury, The Great Rock’n’roll Swindle, The Future is Unwritten), o longa adapta o romance homônimo de 1959 de Colin MacInnes, ambientado na região de Notting Hill no final dos anos 1950, cruzando tensões raciais, juventude como mercado e a transição do jazz para o rock. Com um elenco que, além de Bowie, tinha Sade Adu (sim!):
O filme foi vendido como uma superprodução pop e ficou para a história como um tremendo fracasso.
Por quê? A resposta pode estar no que muda das páginas romance para a tela: no livro, o narrador é anônimo e o tom é mais observacional e introspectivo. No filme, ele vira Colin (Eddie O’Connell) e a trama é reorganizada para caber num arco musical: o romance com Crêpe Suzette (Patsy Kensit, que anos mais tarde se tornou a senhora Liam Gallagher) se torna o eixo principal, os personagens ganham contornos caricatos e o subtexto social é empurrado para cenas grandes, coreografadas e com impacto visual. A mudança mais clara é o desfecho: o romance termina num registro ambíguo e reflexivo, enquanto o filme escolhe uma saída celebratória em meio aos riots londrinos.
Eis que entra Bowie, o ator. Ele faz Vendice Partners, um executivo de publicidade glamouroso e cínico, e assina a faixa-título, que atravessou o tempo com facilidade:
Não é por acaso que o filme seja raramente citado hoje. Apesar da trilha sonora (que também tinha The Style Council!) a crítica detonou sem dó. O New York Times descreveu o resultado como “errático”, e o Guardian chamou o filme de um “overbudget turkey” (um “peru inflado”, risos). O consenso era de que o filme tinha brilho visual e ambição, mas uma narrativa irregular com comentário social raso. Foi a pá de cal numa produção que vinha de estouro de orçamento (saiu de £6 milhões para cerca de £8,6 milhões), sucessivas reescritas de roteiro. O hype de “filme-evento” apoiado em participações estreladas acabou amplificando a decepção.
Ao mesmo tempo, “Absolute Beginners” (a canção, que não entrou em nenhum álbum da época e ganhou sobrevida em compilações) foi um tremendo hit.
Hoje, com certo distanciamento histórico (e muita boa vontade) o filme tem leitura mais “cult”, com 73% no Rotten Tomatoes - sinal dos tempos mesmo.
🔗 Saiba mais
Absolute Beginners ’86 (Cultural Gutter)
David Bowie films: Absolute Beginners (Bowie World)
Newsletter amiga da semana: Odorico Leal
Autor de Nostalgias Canibais (Âyiné, 2024), Odorico escreve sobre literatura e escrita do jeito mais gostoso: com erudição sem pose, uma voz cheia de pequenas digressões e achados.
Na edição dessa semana, aqui no Substack, ele parte do encontro tardio com a argentina Hebe Uhart para chegar numa reflexão sobre o que a crônica tem de melhor: o direito de começar num assunto e terminar em outro, aceitando que a realidade é inapreensível, e que às vezes a epifania depende do desvio.
Leia/assine:
🔗 Dicas da Insider
Uma vez por mês, um breve bloco de dicas selecionadas por mim, com apoio da Insider.
🎬 Foi Apenas um Acidente (Jafar Panahi) na MUBI
Se você estava esperando uma boa desculpa pra assinar (ou voltar) pra MUBI: Foi Apenas um Acidente, do iraniano Jafar Panahi (Táxi Teerã, No Bears), chega com exclusividade ao streaming em 06/03. O filme vem com uma avalanche de selo de prestígio: Palma de Ouro em Cannes 2025, indicações ao Oscar (Filme Internacional e Roteiro Original), ao BAFTA (Filme em Língua Não Inglesa) e um rastro de prêmios na temporada. Na trama, o mecânico Vahid sequestra um homem que acredita ter sido seu torturador na prisão — e, sem ter certeza absoluta, convoca outras vítimas para confirmar a identidade. É thriller moral sob o peso do autoritarismo: o filme te coloca na pergunta incômoda sobre o que retribuição significa, na prática.
📚 A ciência confirma: leitura é defesa da saúde mental
Se você anda sentindo o cérebro “puxado” por vídeos curtos, multitarefa e aquela hiperconectividade que deixa a atenção em migalhas: em reportagem no PublishNews, o Ubiratan Brasil faz um apanhado bem bom (e sem moralismo) sobre como a leitura funciona como treino de concentração e proteção cognitiva. Tem desde o mito do estudo da Microsoft sobre “atenção de peixinho-dourado” até pesquisas mais recentes comparando leitura vs. TikTok em tarefas de memória e atenção — e, no meio, uma defesa bonita do livro como atividade ativa, que ancora o cérebro e devolve profundidade.
🏛️ Museu da Casa Brasileira vai ganhar nova sede em casarão modernista no interior
Depois de três anos “sem teto” e com o acervo em reserva técnica, o Museu da Casa Brasileira (MCB) finalmente tem destino: a nova sede será a Residência Olivo Gomes, um casarão modernista dos anos 1950 em São José dos Campos, projetado por Rino Levi e cercado por jardins de Roberto Burle Marx. A previsão é de uma mostra inaugural em maio — e, num primeiro momento, a operação deve ser tocada por um braço da Pinacoteca, já que o MCB está sem equipe.
👕 Insider: a escolha certa
Março é aquele mês em que o mês, enfim!, pega tração pra valer. Com a rotina em dia, vem uma pergunta prática: “o que eu vou vestir pra trabalhar, treinar, viajar e viver sem sofrer no processo?” A proposta da Insider é essa: menos excesso, mais decisão inteligente. O Mês do Consumidor é a primeira grande janela do ano para fazer o upgrade estratégico de peças-chave com benefício real. Abaixo, uma seleção de peças para com o melhor desconto do ano até agora:
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Saia Mini Kyoto (FutureForm®): alfaiataria tech com cintura alta, bolsos laterais e frente transpassada com fechamento invisível. O tecido desamassa no corpo, é resistente à água e aguenta o ritmo do dia. Compre no site.
The Perfect Top Cropped (NAKEDFEEL™): versão cropped do best-seller, com bojo removível e tecido duplo, secagem rápida e proteção UV+50. Compre no site.
Henley Game Changer: peça-curinga com cara minimalista, botões não aparentes e tecido que resolve a vida: anti odor, conforto térmico e não desbota. Compre no site.




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Guia Paulicéia: 10 coisas para fazer em São Paulo no fim de semana
Teatro, Indie Book Day, festas para ver o Oscar e caminhadas culturais.

















adorei a edição. e é curioso como a internet (especialmente o tiktok) tem nomeado váaarios comportamentos que já aconteciam. penso que tem o lado positivo (trazer esse senso de pertencimento/tá tudo bem fazer, tem um monte de gente q faz) e negativo (?) de associar isso a uma “tendência” (será?). ou, pelo menos, tendência enquanto aquele termo é considerado algo novo, hehe. seria legal a gente não precisar desses termos justificando / explicando o que a gente gosta, né?:)
p.s. fico pensando se o orkut ainda existisse e o perfil que vc preenche fosse cheio desses termos que estão sendo criados… regular maxxer, quiet quitter, etc
“a janela do meu quarto dá prum estacionamento e pros fundos do prédio vizinho” pensei na capa de The Car dos macacos do ártico na mesma hora