🧑🏻🎤 Zeladoria: David Bowie
Como começar a ouvir Bowie, dicas de filme, livro e um aviso especial
Oi,
Essa é a primeira edição da newsletter de 2026 e ela existe por que esse ano, em 10 de janeiro, completam-se dez anos da morte de David Bowie — presença constante no meu repertório cultural e no meu jeito de olhar o mundo. Essa edição não quer nem tenta “dar conta” de tudo. Seria impossível. Mas tenta, sim, marcar uma admiração que atravessa o tempo.
O que você vai encontrar aqui: um tanto de memória pessoal, eventos em SP essa semana, um mapa rápido para começar a ouvir Bowie, um livraço para aprofundar as ideias, vários links e vídeos. No fim, tem um extra para quem leu até aqui: um texto meu, escrito em Londres, quando Bowie ainda estava entre nós.
Como sempre, para falar comigo é só deixar um comentário abaixo. E lembre: sharing is caring ;)
Em obituário escrito na época para a Folha, o amigo J.P. Cuenca escreveu:
“Ao longo das exéquias globais dessa semana, entre histórias pessoais com o morto do tipo que se contam em velórios de gente querida, a tônica das declarações nas redes era algo como: “ele me ajudou a descobrir quem eu sou”. Herança bastante adequada para um artista que passou a vida inteira se abandonando e se descobrindo até as vésperas da sua morte.”
Dez anos depois, essa lembrança não parou de carregar certo choque silencioso de perceber que algumas figuras organizam mais a nossa vida interna do que a gente costuma admitir.
E é por isso que em 2026, ano que marca uma década da passagem do Starman desse plano para outro, estou me comprometendo a falar dele o ano todo. O “David Bowie da Semana” estréia na próxima edição da Tá Todo Mundo Tentando, que sai às 5h55 de 16/01, e toda semana vai trazer, junto com o conteúdo normal da newsletter, um fato-anedota-análise-curiosidade-babadinho da vida do Bowie.
E tem assunto, viu? A ideia é um cruzamento da minha curiosidade pelo artista com o acervo aparentemente infinito de assunto que ele deixou na Terra. E é repeteco do finado “David Bowie do Dia”, projeto que eu mantive no site da MTV Brasil circa 2012-13 e que foi apagado junto com o site da emissora (mas tudo bem, porque eu sei mais e escrevo melhor hoje).
🖤 Como começar a ouvir Bowie (sem pirar)
Se você chegou agora em David Bowie, e só conhece pelo Goblin King ou pela foto com o raio na cara, é normal não ter muita ideia do que ouvir. Afinal, são 26 álbuns de estúdio, dezenas de coletâneas, discos ao vivo, bootlegs, filmes, participações, covers, homenagens e um arquivo que parece só aumentar com o passar dos anos. A boa notícia é que você não precisa conhecer e nem gostar de tudo. Bowie foi inacreditavelmente produtivo ao longo de quatro décadas, então tem mesmo muita coisa.
Importante: todos os discos mencionados estão disponíveis em todas as plataformas de streaming. Eu recomendo o Tidal, que prefiro por qualidade de áudio, de interface e catálogo. Mas ouça onde você preferir.
Dá pra dizer sem medo de errar que os anos 1970 concentram o núcleo mais consistente e inventivo das quadro décadas criativas de Bowie. Por isso, minha sugestão é simples e parcial (como toda boa curadoria) comece por aí.
Entre The Man Who Sold the World (1970) e Scary Monsters (and Super Creeps) (1980), Bowie lançou uma sequência absurda de discos que não apenas soam diferentes entre si, como inauguram fases inteiras da música pop. É ali que está o glam teatral de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars; a deriva distópica de Diamond Dogs; a virada soul de Young Americans; a tensão elegante de Station to Station; e, já no fim da década, a experimentação ousada da chamada “trilogia de Berlim”: Low, “Heroes” e Lodger, álbuns que abriram caminho para muito que viria depois.
Pense que isso aconteceu ao mesmo tempo em que Bowie produzia outros discos fundamentais do período, como Transformer de Lou Reed, e The Idiot e Lust for Life, de Iggy Pop; excursionava, estrelav o sci-fi esquisitão de Nicholas Roeg The Man Who Fell to Earth e ainda encontrava tempo para circular com John Lennon e Elizabeth Taylor. A década termina com ele elogiado no teatro, interpretando John Merrick em O Homem Elefante, já no limiar dos anos 80.
Dá para ouvir Bowie fora dessa rota? Claro! Comece pela bem-sucedida parceria com Nile Rodgers em Let’s Dance, pelo disco de drum’n’bass Earthling, pela atualíssima “I’m Afraid of Americans” com o Trent Reznor, ou pelo excelente e derradeiro Blackstar, um disco de jazz (!) corretamente celebrado como um de seus melhores.
Mas começar pela disografia setentista ajuda a entender como ele era capaz de mudar tanto e continuar sendo sempre o mesmo artista — Madonna, Lady Gaga e todo mundo que hoje inventa “eras” bebem diretamente dessa fonte.
Ao longo de 2026, o “David Bowie da Semana” vai voltar a esses discos/fases/eras com calma. Por enquanto, seja bem-vindo/a e confia: vale a pena demais.
🧑🏼🎤Baile do Bowie 2026
No sábado, 10/01, rola a edição 2026 do Baile do Bowie, na Casa Rockambole, que integra a agenda afetiva da comunidade bowieana da cidade desde 2015. A edição de 2026 marca três datas simbólicas: os 79 anos de Bowie, os 10 anos de sua morte e os 50 anos de “Station to Station”. São duas pistas (uma dedicada integralmente a Bowie), com DJs, performances ao vivo e competição de looks.
📅 Sábado, 10/01, a partir das 22h, na Casa Rockambole (Rua Belmiro Braga, 119 – Pinheiros). Ingressos entre R$ 40 e R$ 60, à venda online.
📻 BBC Radio 6
Em 2026, as homenagens vão abundar. Na Inglaterra, a Radio 6 da BBC já começou o ano com uma semana inteira de programação dedicada a tratar Bowie como o que ele foi: uma obra em permanente transformação.
Documentários, programas comentados e mergulhos de arquivo atravessam diferentes fases da carreira e oferecem um jeito consistente de ouvir Bowie hoje — com tempo, curiosidade e só o mínimo inevitável de nostalgia.
O destaque inicial é a série “David Bowie: Changeling”, apresentada por Kate Moss, que foi amiga pessoal (e usou um figurino clássico da fase Ziggy Stardust para receber um prêmio no lugar dele em 2014, na Inglaterra). O programa revisita o início dos anos 1970, período de viradas radicais, com relatos inéditos de Geoff MacCormack, amigo de infância de Bowie, além de participações de artistas como Rick Owens e St. Vincent.
Outro momento forte é “Memo for Radio Show”. A partir de um bilhete manuscrito encontrado no recém-criado David Bowie Centre (V&A East Storehouse), a Radio 6 recria uma playlist pessoal de Bowie — com faixas de The Beatles, Miles Davis e Legendary Stardust Cowboy — costurada por áudios de arquivo da voz do músico. A programação culmina em “David Bowie Forever”, com doze horas seguidas de debates e escutas guiadas. Entre os encontros, conversas sobre influência cultural com participações de Henry Rollins, Brett Anderson e Neil Tennant. O encerramento acontece em 11/01, com Mary Anne Hobbs e Iggy Pop revisitarem os chamados “anos de Berlim”, com foco em Low (1977). A boa notícia: mesmo após o fim da semana especial, os programas ficam disponíveis no canal da BBC Radio 6 no Youtube.
🔖 “David Bowie: A Life”, Dylan Jones
O jornalista inglês Dylan Jones opta por um caminho direto dentro do formato história oral e conversa com duas centenas de entrevistados, incluindo amigos, parentes, colaboradores, rivais e pessoas que conviveram com Bowie (além de conversas entre Jones e o próprio artista ao longo de décadas) para reconstruir sua trajetória com atenção ao trabalho, às decisões e às viradas artísticas e pessoais que moldaram. É uma leitura sólida para quer entender em profundidade como o mito se construiu ao longo das décadas, tocando em assuntos espinhosos como a esquizofrenia do irmão mais velho, Terry Jones, o período doidão nos anos 1970, a má fase criativa nos anos 1980 e o câncer ali nos anos 2010.
Em edições posteriores, especialmente na versão revisada e expandida que circula depois da primeira publicação de 2017/2018, há adaptações de formato e conteúdo, incluindo um acréscimo que aborda questões de saúde mental na família, dando contexto a certos relatos presentes no livro, além de ajustes na estrutura das contribuições para dar mais perspectiva histórica e crítica a entrevistas pré-existentes.
🔗 Saiba mais
Review no NYT (2017)
Review no Guardian (2015)
Encomende no site da Martins Fontes Brasil
Compre no site da Penguin UK
📽️Mostra Davids no Belas Artes Frei Caneca
O Cinesystem Belas Artes Frei Caneca abre janeiro com a MOSTRA DAVIDS, dedicada a dois artistas centrais da cultura do século 20: Bowie e Lynch (que morreu em janeiro de 2025).
Entre 08 e 14/01, as sessões destacam a presença no cinema — do vampiro de Fome de Viver com Catarine Deneuve ao alienígena de O Homem que Caiu na Terra, passando pelo registro histórico Ziggy Stardust and the Spiders from Mars e pela participação em Christiane F. . A partir de 22/01, a mostra muda de eixo e passa a exibir filmes de David Lynch, com clássicos como Cidade dos Sonhos Coração Selvagem.
📅 De 08 a 14/01 (David Bowie) | De 22 a 28/01 (David Lynch) no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca. Ingressos a R$ 32 (inteira) e R$ 16 (meia). Programação completa e vendas no site.
🎞️ “Moonage Daydream” (2022)
A mais recente dos filmes sobre Bowie (até agora), “Moonage Daydream” não é um documentário convencional. O diretor Brett Morgan apostou em formato deliberadamente experimental, usando imagem e som para criar uma experiência sensorial mais próxima de um fluxo de pensamento audiovisual do que de uma linha do tempo organizada. É um tesouro para os muito fãs, já que, além de ser belíssimo visualmente, parte da graça está em identificar as milhares de referências espalhadas ao longo das mais de duas horas de duração, com cenas inéditas devidamente aprovadas pelos detentores do espólio do artista. Se você é neófito, pode achar chato, mas mesmo assim te garanto que funciona como um belo fundo de tela em situações sociais!
🔗 Saiba mais
Leia resenha da Rolling Stone (2022)
Leia crítica na Folha (2022)
🎁Para quem leu até aqui
Em 2013, fiz um bate-volta maluco até Londres para ver a mostra “David Bowie Is” no Victoria & Albert Museum, antes da abertura oficial, e entrevistar a curadora Victoria Broackes sobre o impacto de Bowie na cultura pop.
Fui a única repórter brasileira convidada a cobrir a exposição antes da inauguração, e o texto saiu na capa da edição de domingo - o auge do jornalismo cultural da época! Importante dizer que “convidada” não é bem a palavra certa: na real, eu mexi muitos pauzinhos para conseguir cartas de recomendação (obrigada, British Council Brasil!) e paguei do meu bolso todos os custos da empreitada. Valeu cada centavo, porque pude ver de perto a mostra, que depois veio à São Paulo, inaugurando a era de grandes exposições do MIS, e seguiu para outras cidades do mundo. Por causa dessa mostra, em 2025, parte do imenso acervo do Bowie passou a integrar a coleção permanente do V&A.
Foi tudo muito rápido: uma hora eu estava embarcando num red eye da British Airways, no outro estava me apresentando numa entrada de serviço do imenso museu na Cromwell Road, com meus papéis e frio na barriga. Bobagem. Faltava um dia para o evento de gala da abertura (para isso não fui convidada!) e fui recebida com tranquilidade. A equipe do museu acertava últimos detalhes do show e o clima era elétrico e animada, com pessoas correndo para fazer ajustes de luz nas salas onde textos curatoriais, figurinos, instrumentos, partituras, maquetes de palcos, pinturas, desenhos, fotografias, instalações de vídeo, poemas escritos em folhas de caderno e todo tipo de memorabilia cultural possível estavam já expostos.
De imediato, a Victoria me deu um fone de ouvido (talvez você não goste de guias sonoros em mseus, e tudo bem, mas pense que nesse caso a música é parte crucial do que está sendo visto!) e me deu “o tempo que eu precisasse” para vagar pelos salões. Era tanta coisa que eu não sabia bem o que ver e, um pouco aflita com receio de perder a entrevistada no museu, fiz uma primeira tour rápida, anotando novas perguntas junto à pauta que já tinha elaborado.
Quando nos reencontramos, sentamos num banco em frente da vitrine com manequim vestindo o terno azul claro criado pelo Freddie Burretti que Bowie usou no vídeo de “Life on Mars?”, e Victoria começou me contando que esse era seu item favorito entre os mais 300 presentes na mostra (selecionados no meio sei lá quantos mil do acervo oficial do artista).

É quando seu rádio apita, e Victoria pede licença para atender. Era alguém dizendo que o Bowie e-m-p-e-s-s-oa estava em Londres e queria visitar a exposição. A curadora, que ainda não tinha tido a oportunidade de conhecê-lo (Bowie notoriamente não se envolveu na exposição, apenas dando acesso ao acervo, a Tilda Swinton o representou na abertura), ficou tão nervosa que derrubou o rádio e, com os olhos arregalados, começou a gesticular e falar rápido para entender o que estava acontecendo.
Mas nervosa mesmo fiquei eu, abalada com a possibilidade de dar de cara com o homem (e a Iman!) de forma não planejada, tendo o Victoria & Albert Musem só pata nós. Oh, dare to dream!
Não aconteceu, claro. Bowie, Iman & família não estiveram na abertura e viram a mostra discreta e privadamente em outra oportunidade. Mas deixei parei de fantasiar em como teria sido minha vida se eu tivesse dado essa sorte imensa. Provavelmente, seria a mesma coisa. Mas com uma dose a mais de obsessão.
Exceção feita à epígrafe, o Bowie não aparece diretamente no Deslumbre” - você sabe, o livro que lancei no final de 2025. Mas ele abre a playlist especial que fiz para acompanhar o lançamento, e está em quase tudo o que atravessa o livro, mesmo quando não é citado diretamente. Pensei em citar, claro. Mas enquanto escrevia, percebi que uma hora eu ia falar dele de outro jeito, fora dessa história, em outro tempo.
A edição de hoje inaugura 2026 como um ano de transformação do projeto, que fará aniversário de cinco anos em abril. Por isso, fez muito sentido começar o ano olhando para quem ensinou tanta gente a mudar de forma.
A partir da edição de 16/10 teremos o “David Bowie da Semana”, série especial que será publicada ao longo de todo o ano às 5h55 das sextas-feiras na Tá Todo Mundo Tentando.
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Que 2026 seja um ano David Bowie, cheio de experimentações e reinvenções. Saludos, Gaía!!
Edição de ouro!