Tá Todo Mundo Tentando | Gaía Passarelli

Tá Todo Mundo Tentando | Gaía Passarelli

Zeladoria: livros feministas

03/04/2026 | Sete livros sobre controle do corpo, exploração e resistência (do feudalismo ao TikTok)

Gaía Passarelli's avatar
Gaía Passarelli
Apr 03, 2026
∙ Paid

Oi,

Em março, indiquei livros de autoras brasileiras - incluindo a Ana Paula Maia, que acaba de entrar para a lista final do Booker Prize! E em abril sigo no tema feminismos por que me parece necessário seguir falando sobre por que as coisas são como são - e o que podemos fazer para mudá-las.

veja todas as edições da Zeladoria

A edição de hoje tem livros sobre capitalismo e caça às bruxas, climatério, escrita como sobrevivência, cultura pop e misoginia internalizada, ficção especulativa como imaginação política, linguagem como ferramenta de resistência e o apagamento do lado escuro do feminino. Todos os livros estão em catálogo e podem ser encomendados direto nas editoras - ou, se você preferir, busque em sebos ou em suas livrarias preferidas.

A edição também tem um paywall. Esse é um “preview”, um petisco do que entrego aqui a cada edição - lembrando que Guia Pauliceia sai toda quinta, Tá Todo Mundo Tentando sai toda sexta e Zeladoria e edições especiais saem uma vez por mês. Se você gostar do que ler, considere se tornar apoiador/a. Com apenas R$20 (preço de uma cerveja em São Paulo) você recebe tudo isso que acabei de explicar e tem acesso às centenas de edições já publicadas nos cinco anos de vida desse projeto - e vem muito mais adiante!

E quero ouvir você também: deixe nos comentários o que você está lendo.

Leave a comment

Calibã e a Bruxa, Silvia Federici (Elefante)

Publicado em 2004 (e relido hoje como um clássico do feminismo materialista), parte da premissa simples: para entender a violência contra as mulheres, não basta olhar para moral e religião, mas é preciso olhar para a base concreta da vida social: trabalho, terra, dinheiro, Estado, família, controle do corpo.

A partir daí, Federici propõe que na passagem do feudalismo para o capitalismo, a guerra contra as mulheres (com a caça às bruxas como episódio central) não foi um “efeito colateral” da modernidade, mas parte estruturante da nova ordem. Ela recoloca a caça às bruxas no centro da história econômica e política para mostrar como, com cercamentos de terras, disciplinamento do trabalho e expansão colonial, um processo que reorganizou a vida social ao impor uma nova divisão sexual do trabalho e transformar o corpo feminino em território de controle.

O livro combina história social, leitura crítica de documentos e imaginação política para rastrear como a destruição de formas comunais de vida e a formação de um proletariado “moderno” vieram acompanhadas de ataques sistemáticos a saberes, autonomias e redes de solidariedade.

Por isso, é uma obra muito atual: ao olhar para a caça às bruxas como tecnologia de poder, Federici cria vocabulário para pensar a persistência da violência, da exploração reprodutiva e das guerras morais em torno do corpo.

🔗 Leia também: Calibã e a Bruxa, 20 anos depois, por Silvia Federici

compre na editora

Diário de uma mudança, Inés Garland (Instante)

O climatério como matéria literária (não como autoconhecimento, medicina ou tabu a ser explicado) libera a menopausa para ser usada para investigar o que acontece quando o corpo muda já que, com ele, mudam vocabulário, autoestima, desejo, imaginação. Em entradas curtas entre o diário, o ensaio e pequenas cenas ficcionais, a autora combina humor e precisão para registrar sintomas, pensamentos e constrangimentos, testando formas de se narrar longe da caricatura da mulher “em crise”, se recusando a romantizar o sofrimento.

A narradora atravessa um acúmulo de viradas — luto, solidão, a filha saindo de casa, um casamento encerrado — e percebe que a menopausa não vem sozinha: ela funciona como gatilho e espelho de uma reorganização mais ampla.

O livro, assim, dá forma a uma experiência sobre a qual ainda existe muito silêncio e insere essa experiência numa conversa literária recente (pense em All Fours, da Miranda July, em que a perimenopausa aparece como uma espécie de estado existencial, detonando desejo, identidade e vida doméstica). O resultado é um texto íntimo e sóbrio, que reposiciona o envelhecer feminino como campo de pensamento — e não como rodapé da vida adulta.

🔗 Leia também: resenha de Marcella Franco na Folha de São Paulo

compre na editora

Faltas, Cecilia Gentili (DBA)

Em forma de cartas endereçadas a pessoas que atravessaram sua infância e adolescência em Gálvez, no interior da Argentina, a autora reconstrói uma memória marcada por violência e silêncio. Em cada missiva, o livro faz um acerto de contas com uma infância interrompida: a descoberta de si, a pobreza e a falta de recursos, o descompasso entre o gênero atribuído e o sentido como verdade, e sobretudo o abuso sexual que atravessa a narrativa como um fantasma insistente, mesmo quando o agressor não é diretamente nomeado como destinatário.

Escrever é também um trabalho de reparação: Cecília Gentili usa dor e lucidez, raiva e afeto, ironia e acidez para colocar em foco as engrenagens sociais que sustentam o trauma: as testemunhas, as conveniências, as omissões. Um exercício pleno do direito de recontar a própria vida nos próprios termos.

🔗 Leia também: resenha de Lucas Brandão na newsletter Do interior:

Do interior
Um cômodo secreto no peito
“Estou muito chateada comigo mesma porque não me lembro do seu nome. Era Claudia? Acho que na grande categoria nomes relevantes da minha memória, o seu acabou não sendo incluído…
Read more
19 days ago · 19 likes · 5 comments · Luca Brandão

compre na editora

Garota Sobre Garota, Sophie Gilbert (Todavia)

Ensaio de crítica cultural, com apuração minuciosa e olhar pessoal, sobre como a cultura pop do fim dos anos 1990 e começo dos 2000 ajudou a formar (e deformar) a autoimagem de uma geração de mulheres. Sophie Gilbert recompõe o ambiente de revistas, videoclipes, reality shows, filmes, publicidade e celebridades para mostrar como um discurso de “empoderamento” muitas vezes serviu de verniz para novas formas de objetificação, competição e vigilância do corpo — e como esses padrões continuam circulando hoje, reciclados nas redes. Ao rastrear essa passagem do “girl power” para um pós-feminismo individualista e comercial, o livro traz um diagnóstico realista, e um alerta: quanto mais energia a cultura exige das mulheres para se consertarem, se compararem e se atacarem, menos sobra para enxergar (e enfrentar) as estruturas que lucram com essa insegurança.

🔗 Leia também: entrevista com Sophie Gilbert na Gama

compre no site da editora

User's avatar

Continue reading this post for free, courtesy of Gaía Passarelli.

Or purchase a paid subscription.
© 2026 Gaia Passarelli · Privacy ∙ Terms ∙ Collection notice
Start your SubstackGet the app
Substack is the home for great culture