Zeladoria de novembro: livros sobre música
Sepultura, Maria Bethânia, Charli XCX, Chuck Berry e um tiquinho assim de pós-punk
Oi,
Essa é a edição de novembro da Zeladoria, o envio mensal da Tá Todo Mundo Tentando com curadoria dicas de coisas legais para ver, ler e ouvir.
O tema dessa edição é livros sobre música. Mas tem umas newsletters também. É assim porque comecei a pré-venda de “Deslumbre: histórias de obsessão musical”, meu novo livro, e aproveitei o ensejo para montar uma lista de livros que pensam música de diferentes formas.
Como sempre, para falar comigo é só deixar um comentário abaixo. E lembre: sharing is caring ;)
📕Deslumbre: Histórias de Obsessão Musical
Estou fechando 2025 com uma boa nova: começou a pré-venda de “Deslumbre: histórias de obsessão musical”, meu novo livro. Esta edição da Zeladoria tem esse tema por causa dele, então sejamos claros desde já: sim, este é o motivo da newsletter. E sim, conto com você nessa etapa importante.
“Deslumbre” marca uma volta ao meu primeiro assunto: música como forma de entender o mundo. E também fecha uma história pessoal que começou com “Mas Você Vai Sozinha?” (2016), o livro-de-estrada feito no improviso, no meio de uma fase divertida e caótica. Depois veio “Tá Todo Mundo Tentando” (2024), o livro-da-newsletter — um balaio de crônicas, ensaios, ficções e aquele humor torto que vocês já conhecem. Agora chega “Deslumbre”, o livro-de-música que encerra esse ciclo.
Aqui mergulho na minha formação cultural e conto como a música atravessou — e moldou — minha vida. Com prefácio do Camilo Rocha, jornalista, DJ e autor do essencial “Bate-Estaca” (falei sobre nessa edição da Zeladoria) e ilustrações do Tiago El Cerdo Lacerda (que você conhece de anos de colaborações na Tá Todo Mundo Tentando!) o livro revisita quatro momentos da minha trajetória como delinquente juvenil (rs), repórter, apresentadora e fã.
Do mítico Espaço Retrô ao Peel Acres, passando pelo after-hours Hell’s Club e pelos corredores da MTV Brasil, desenho uma linha do tempo dos gostos e descobertas de uma Geração X paulistana: crianças nos anos 1980, jovens nos 1990, adultos nos 2000, atravessando os intensos abalos tecnológicos e culturais da virada do século. Entre cada capítulo, as seções Backstage ampliam o universo do livro com listas pessoais de músicas, discos, filmes e leituras que marcaram época — referências que vão de Joy Division a Aphex Twin, Battles e Crystal Castles.
A pré-venda, que começou essa semana, é a etapa mais importante para uma editora entender a temperatura de um lançamento — ajuda na tiragem, na distribuição e no fôlego da divulgação.
Se quiser (e puder) apoiar esse livro desde o começo, garanta o seu já:
📘Jardim Quitaúna - Rodrigo Carneiro
O terceiro livro do poeta, músico e jornalista Rodrigo Carneiro forma, junto com “Deslumbre” e o “Tracks”, do Tarcisio Bueno (próximo dessa lista) uma trinca de memórias musicais paulistanas. Carneiro era habitué do Espaço Retrô, como eu, só que mais ligado nas tendências musicais da época, tanto que era integrante do Mickey Junkies.
O livro é um relato memorialista de alguém fascinado por tudo que está ao redor, do subterrâneo ao interplanetário. As crônicas têm uma elegância tranquila, revisitando obsessões, encontros improváveis e bastidores de décadas de música e imprensa — ecos muito familiares para quem cresceu em São Paulo entre os anos 1980 e 2000. Há a paixão infantil por Sidney Magal, uma tarde no cinema com Chico Science, conversas com Jello Biafra e a comovente última aparição pública de Itamar Assumpção. A apresentação é de Adriana Ferreira Silva.
📙Tracks - Eduardo Buenas
O terceiro livro do escritor e livreiro Tarcísio Buenas é um volume enxuto, ágil, desses que fazem ótima companhia no metrô ou numa tarde quente qualquer, numa mesa de bar, com uma cerveja suando no copo. Baiano radicado em São Paulo, Buenas virou figura emblemática do Bixiga paulistano, um observador atento dos notívagos, sempre com um All Star nos pés e uma camiseta de banda.
As histórias começam na poltrona da sua antiga livraria, a única que funcionava de madrugada, dentro do Cemitério de Automóveis, nos tempos da Frei Caneca — e se espalham pela Paim, pelos botecos e conversas casuais que revelam pequenas epifanias. São crônicas rápidas, diálogos curiosos e aforismos que falam de música, amor, dor, livros, filmes e discos — essas coisas que realmente importam.
📘Sepultura: Chaos AD - Vinicius Castro
Este livro chegou por aqui e entra direto na coleção O Livro do Disco, da Cobogó — aquela mesma coleção que propõe exatamente o que o nome sugere: livros sobre discos. Há clássicos internacionais, como o disco da banana do Velvet Underground e o “Electric Ladyland” do Jimi Hendrix, mas o coração da coleção bate mesmo nos álbuns brasileiros, de Gilberto Gil a Letrux, de Marina Lima a Racionais MC’s, de Paralamas a Beth Carvalho.
“Chaos A.D.”, de 1993, tem um lugar especial: é o disco que consolidou o Sepultura no circuito internacional, ultrapassando a marca de um milhão de cópias e levando uma banda brasileira a um patamar inédito no cenário mundial. De quebra, consolidou o Sepultura como a maior banda de heavy metal da sua geração. O álbum marcou uma virada de linguagem — mais cadenciada, cheia de arestas brasileiras — sem perder o peso que sempre definiu o grupo.
No livro, o jornalista Vinicius Castro destrincha as músicas, os bastidores e o impacto cultural do álbum, no Brasil e além, mostrando como o quarteto incorporou elementos como a percussão das escolas de samba e o batuque do Olodum, para criar uma sonoridade única, expandindo os limites tanto do metal quanto dos interesses artísticos dos quatro integrantes da formaçao original do Sepultura.
📗Maria Bethânia, primeiros anos: da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro – Paulo Henrique de Moura
por , escritora da newsletter .
No último dia 22 de novembro, o jornalista e pesquisador Paulo Henrique de Moura lançou “Maria Bethânia, primeiros anos – da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro”, um recorte da carreira da artista nos anos iniciais, os quais foram marcados pela vigilância dos dispositivos estatais de repressão do regime ditatorial.
Em conversa com o autor, questionei-o acerca do que, através de sua pesquisa e também na sua opinião, trazia esse aspecto subversivo às apresentações de Bethânia:
“Havia algo profundamente político no modo como ela ocupava o palco: a intensidade dramática, o corpo rigidamente entregue ao texto, a forma como interpretava cada canção como se fosse uma cena teatral. Essa postura, aliada ao repertório do espetáculo Opinião, fez com que o regime a percebesse como uma figura de risco. Além disso, Bethânia representava um Brasil insurgente: nordestina, mulher jovem, de voz grave e presença afirmativa, vinda de uma cena cultural baiana que questionava padrões estéticos e sociais. O simples fato de uma cantora transformar canções em atos performáticos, conferindo-lhes uma densidade emocional que mobilizava o público, já era visto como perigoso. Em uma ditadura que temia o afeto coletivo, qualquer artista capaz de gerar identificação e movimento era monitorado.”
Dialogando sobre possível impacto desse período nos dias de hoje, em que arte e política estão em disputa manifesta, Paulo diz:
“A trajetória inicial de Bethânia nos ensina que a arte, quando viva, não cabe nos limites impostos pelo poder. Ela mostra que política não é só palavra de ordem, mas também gesto, corpo, presença e narrativa. Em 1965, Opinião rompeu com a lógica de silenciamento ao colocar no palco três artistas que representavam diferentes brasis: o Brasil negro, o Brasil nordestino e o Brasil operário. Hoje, o funk, o trap e o hip-hop ocupam esse mesmo lugar de disputa simbólica — dão voz a territórios, corpos e experiências que o poder historicamente tentou controlar. O que Bethânia nos deixa como legado é a certeza de que a arte produzida a partir das margens tem potência transformadora. Ela nos lembra que, sempre que grupos dominantes tentam criminalizar expressões culturais populares, é porque essas expressões estão produzindo mudança real, afetando imaginários e alterando estruturas.”
Esse rico trabalho de pesquisa é leitura essencial para nos apropriarmos igualmente do espírito de resistência, principalmente às vésperas de mais um ano eleitoral, e para entendermos que a defesa da democracia também se dá através da pluralidade estética, da liberdade criativa e do direito de todo artista de desobedecer.
📗Eu só fiz viver: a história oral e desavergonhada de Edy Star – Ricardo Santhiago, Igor Lemos Moreira e Daniel Lopes Saraiva
por , escritora da newsletter .
Aproveito esta edição para destacar outro lançamento fundamental de 2025: o livro sobre a vida e a arte de Edy Star, multiartista baiano que atravessou a Ditadura Militar assumindo publicamente sua homossexualidade — um ato de coragem raro no Brasil daquele período. Edy nos deixou em abril deste ano, ainda pouco conhecido pelo grande público, e justamente por isso a obra organizada pelo historiador e escritor Ricardo Santhiago, em parceria com Igor Lemos Moreira e Daniel Lopes Saraiva, se torna tão necessária: ela ajuda a iluminar uma existência livre, inventiva e resistente em anos de censura e violência.
Para quem não conhece, Edy Star foi cantor, compositor, ator, dançarino, produtor teatral, apresentador de rádio e TV, artista plástico e circense. Conterrâneo de João Gilberto e de Luiz Galvão, migrou para o Sudeste nos anos 1960, dividindo-se entre Rio e São Paulo em plena ebulição social e cultural. Foi nos chamados anos de chumbo que lançou, ao lado de Raul Seixas, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada, o disco “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10”, além de “Baioque” (sua versão rock’n’roll da mistura baiana) e do álbum solo “Sweet Edy” — três trabalhos que se tornaram cult com o tempo.
“Eu só fiz viver: a história oral e desavergonhada de Edy Star” reúne depoimentos, arquivos e testemunhos do próprio artista para reconstruir uma vida/arte radicalmente transgressora. Edy anunciava no nome o brilho que carregava, e seu humor irreverente ofereceu momentos de alívio num país em desassossego.
É um livro que amplia nossa memória cultural e apresenta — para quem ainda não teve a sorte de cruzar com ele — a genialidade dessa grande estrela.
Viva! Viva!
📘Chuck Berry: Uma Vida - RJ Smith
por , jornalista, autor da newsletter + etc. e do livro “Kurt Cobain: Fragmentos de uma Autobiografia”.
Fiquei contente em saber que uma robusta biografia de Chuck Berry (1926-2017) acaba de sair no Brasil pela editora Belas Letras. “Chuck Berry: Uma Vida” foi publicada nos EUA em 2022. Seu autor RJ Smith também escreveu uma respeitada bio de James Brown.
O livro de Smith é um ótimo substituto da autobiografia que Berry lançou em 1987. O pioneiro do rock’n’roll era uma pessoa de pé atrás com o mundo e jogou na retranca em seu próprio relato.
Smith conta uma história que merece muito ser contada. Chuck foi o primeiro artista criativamente consistente do rock desde seu primeiro single “Maybellene”, de 1955. Suas letras eram inteligentes, seu ritmo mesclava blues negro e country branco como poucos e seus solos de guitarra eram espertos e marcantes.
Pode ser exagero, mas dá para dizer que sem Chuck Berry não existiriam os Beatles e os Rolling Stones – certamente Keith Richards não teria sua maior referência para tocar e compor.
Mas a história de Berry é amarga. Após três anos e pouco de sucesso, foi preso em 1959 numa trama que parece forjada, na qual foi condenado por tráfico sexual apenas por cruzar estados acompanhado de uma adolescente. O tempo na prisão matou alguma coisa no artista.
Livre da cadeia, Berry nunca mais confiou em ninguém e era rancorosamente sarcástico em entrevistas. Exigia todos os seus cachês em dinheiro vivo e não tinha banda fixa. Ia de cidade em cidade e recrutava quaisquer dois ou três músicos locais (quase sempre de competência questionável) com uma única orientação: tocar músicas de Chuck Berry.
A maioria de seus shows era tão patética que forçou Keith Richards a organizar um show com uma banda de astros do rock para acompanhar Chuck, um evento que foi registrado no estupendo documentário “Hail! Hail! Rock’n’Roll” (no Brasil, “Chuck Berry: O Mito do Rock”), de 1987:
Depois disso, Berry retomou sua postura defensiva e artisticamente desleixada. Uma ótima obra sobre uma pessoa complexa que, talvez, não tenha sua importância tão reconhecida quanto merece.
📨Newsletter da semana: Charli XCX
Preciso registrar o Fato Mais Importante Do Substack Da Última Semana: a chegada da Charli XCX à plataforma. No post de estreia, “The Realities of Being a Pop Star”, ela escreve longamente sobre criatividade, fantasia, performance e tudo que ela aprendeu com o Lou Reed.
É um texto delicioso de acompanhar porque abre a cabeça para a relação entre pop, performance e autoria — e porque Charli pensa com muito mais profundidade do que se costuma permitir às estrelas do mainstream. Sem fazer concessões.
Another thing about being a pop star is that you cannot avoid the fact that some people are simply determined to prove that you are stupid. I’ve always been completely fascinated by this and think it has something to do with self projection. Being a pop star has always been partially about being a fantasy and obviously the fantasy is decided mostly by the consumer. Marketing and strategy and packaging and presentation can do it’s best to guide a viewer to the desired outcome but at the end of the day the consumer gets to decide whether a pop star is a symbol of sex, or anarchy or intelligence or whatever else they wish to see.
📨Newsletter amiga da semana: Repeteco
A
é uma newsletter criada por um grupo de entusiastas de arte, jornalismo e — principalmente — música, que escrevem sobre a cena independente com humor, contexto e aquela energia de quem realmente está no circuito: cobrindo shows, resgatando histórias, trocando impressões e acompanhando bandas de perto, como um metrônomo afinado com o que está rolando.Essa semana, eles escreveram sobre a importância dos “mini-festivais” underground, partindo da experiência épica (e meio desumanizadora) do retorno do Oasis ao Morumbi para lembrar o que faz o circuito independente valer a pena: ingressos acessíveis, bandas conversando na porta, merch na mesa do bar, descobertas inesperadas e a sensação de pertencer a algum lugar que existe de verdade, longe das filas infinitas e dos Ubers impossíveis.
E eles têm, claro, toda razão.
É uma reflexão afetuosa sobre comunidade, música ao vivo e presença, sobre fazer parte.
Leia/assine em:
📨Outras newsletters
Essa semana, no chat da minha newsletter no Substack, pedi dicas de newsletters de música, brasileiras ou não. Se você leu até aqui, provavelmente vai gostar:
Ps: só da para entrar no chat do Substack pelo app e pelo site! Se você não sabe como funciona mas se interessou, aqui tem uma explicação:
👁️ Veja também
🚨 Guia Paulicéia: 11 coisas para fazer em São Paulo
Oi, Essa é mais uma edição do Guia Paulicéia, o compilado de coisas legais para ver/fazer em São Paulo enviado semanalmente para apoiadores da Tá Todo Mundo Tentando. O guia é formatado e revisado com ajuda do gpt5. Mas toda a curadoria e pesquisa é minha mesmo, então não se preocupe porque não há algoritmo sugerindo coisas ;)
📙Guia Paulicéia: 11 livrarias de rua no centro de São Paulo
Oi, Antes de seguir, um aviso rápido: amanhã (sexta, 21/11) é emenda de feriado por aqui e não teremos edição da Tá Todo Mundo Tentando. Pela atenção, obrigada!
⌨️ Tá Todo Mundo Tentando: ver shows
Para ouvir lendo: Step On, do Happy Mondays. As pessoas estavam muito felizes em 1990-pouco. Tá na playlist da Tá Todo Mundo Tentando no Spotify que tem centenas de músicas (mesmo) e são todas ótimas (claro).
🪬Obrigada por ler até aqui!
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Saíram recentemente outras três coletâneas sobre música de autores e editoras independentes que valem a indicação: o "Eu Nem Queria Dar Entrevista" do Scream & Yell, o "Entrevistas da Música Alternativa" do Sounds Like Us, e o "Um Culto ao Velvet Underground num Salão de Forró da Baixada Fluminense" do Filipe Albuquerque.
Obrigado pelo convite pra participar, Gaía!