Guia Paulicéia: especial São Paulo por Rata Del Centro
21/05/2026 | uma edição diferente para flanar pela cidade em boa companhia
Esta é uma edição para flanar tendo a cidade (com seus prós e contras) como cenário e a Rata Del Centro como companhia.
Antes de seguir: na próxima semana estarei na Bibla Livraria com a colega Tracy Mann falando sobre memória e escrita no encontro “Mulheres: Música e Memória”. É de graça e garanto que será um tremendo papo:
Na edição de hoje, inspirada pelas andanças narradas no Instagram, a Rata Del Centro nos puxa pela mão e pelo pensamento para caminhar, observar e investigar, se recusando a passar batida, num roteiro com cinema, mate com açaí, galerias, vinho, livrarias e mirantes.
Siga a Rata no Instagram e participe da segunda edição do Inventário de Gostos e Desgostos, um encontro de escrita sobre a cidade:
Por Karina/Rata Del Centro:
Sou uma mulher que caminha. Ser uma observadora caminhante muda a minha relação com meus pares, meus amores e com o ser humano que almejo me tornar em um futuro que bate à minha porta incessantemente, como se eu fosse uma devedora das expectativas que me rodeiam.
Essa é uma pequena mostra de como a cidade pode nos engolir diariamente. Esteja atenta.
Me chamo Karina, sou a idealizadora da Rata Del Centro, que inicialmente começou como uma curadoria de possibilidades para aproveitar o centro da cidade entre amigas, e atualmente é uma plataforma de pesquisa que fornece experiências culturais sobre a cidade, centrada em mulheres. Sou comunicadora de formação e pesquisadora independente. Meu trabalho transita entre Comunicação, História e Estudos Urbanos e estou interessada no que significa ser uma mulher sul-americana ocupando esse espaço urbano, a cidade, através da escrita, do caminhar e da leitura. Me sinto preenchida ao notar que outras mulheres, paulistanas ou não, se conectam com essa ideia em um território que pode ser hostil em algumas esferas.
A Rata existe para fazer circular as narrativas femininas contadas e compartilhadas por mulheres no centro da cidade.
Os lugares que frequento na cidade estimulam aquilo que faço, penso, crio. O Cine Marabá, aqui do ladinho, sempre é uma boa pedida para quando não quero interagir com o mundo exterior e evito martelar a cabeça pesquisando teorias fantasiosas de algum filme cult. Além disso, me recorda com carinho a criança que fui: esse o primeiro cinema que visitei na vida com meu pai, que sempre me contava do declínio da Cinelândia paulista neste entorno.
Saindo dali, gosto de tomar um mate com açaí na Casa do Mate. Um espaço simples (e cheio de adesivos!) tradicional e aconchegante para quem frequenta o centro fora do espectro hypado. Por viajar pela América Latina e conhecer muita gente, naturalmente criei vínculos e é muito bonito ver o entusiasmo dos que me visitam quando conhecem essa parte da região central.
A arquitetura da Galeria Metrópole é sempre alvo de fotografias e continuo esperançosa para um dia o cinema ser reaberto. Gosto da vibe despretensiosa do Prosa e Vinho, no terraço da Metrópole, descomplicado, com área aberta, sempre com pessoas bonitas - além disso, as empanadas são uma delícia e vêm quentinhas! Sem sair da própria galeria, vale visitar a editora Sob Influência e a Lovely House, especializada em fotolivros e livros de artistas. Saindo da Metrópole, você pode dar uma passadinha no Edifício Louvre. Aprecio muito o trabalho da Galeria Verve, e me reconheço nostálgica: foi nessa galeria que vi o trabalho do Leonílson pela primeira vez. Perto dali fica um meus lugares favoritos para dates: o Fel, no térreo do Copan, com luz intimista e atendimento impecável.
Quando a minha semana é estressante e me sinto uma parasita do meu próprio raciocínio, considero duas opções: tomar um sorvete no Lumi, ali na Galeria Sete de Abril - bastante frequentada pela galera da fotografia. São sorvetes com sabores surpresas, e o dono é um jovem empreendedor e skatista. Às vezes está aberto, às vezes não, sempre vale a pena. Experimentem um sabor de bolo de rolo. Gosto de gente que ignora a expectativa alheia e isso é raro em São Paulo. A segunda opção é visitar o mirante da Biblioteca Mário de Andrade, um respiro para passar alguns minutos com vista, coisa rara no centro, levar um caderninho, fazer anotações e voltar para casa, para si.
Sou fã da cozinha vietnamita e gosto bastante do Miss Saigon na Rua Bento Freitas - temporariamente fechado, vai reabrir em breve. Vale lembrar também de lugares que não estão nesse miolo mas fazem um bem danado, como o Bánh Mì Vietnam, numa casinha no Bixiga em uma casinha, onde o atendimento às vezes é demorado, mas sempre serve o que promete. É um dos meus espaços de conforto.
Ainda no Bixiga, gosto muito do Centro Cultural Marieta. Quando pintava, fui parte do grupo de desenvolvimento de artistas visuais. Tem uma programação de cineclube, aulas desenho vivo, se atente à programação.
Chegamos ao meu amor maior: Cambuci! A jóia do centro! Um reizinho subestimado! O Cambuci é berço e morada de Volpi, da primeira escola de samba paulista, da primeira mesquita da América Latina, de atrizes, anarquistas, de grafiteiros, como os Gêmeos. Pagu, inclusive, incendiou o bairro em protesto contra o governo provisório daquele período. Nair Bello, Pirata Negro… a lista de filhos célebres é extensa! Foi o bairro onde desfrutei uma parte da minha infância e do qual carrego memórias afetivas. Lugares para passear e conhecer: Cantina 1020, Igreja Nossa Senhora da Glória e, claro, A Juriti. Meus pais adoravam comer calabresa no álcool. Não sei se continuam servindo rã à milanesa, mas você não é proibido de perguntar.
Também fora da bolha da República/Bela Vista/Centro Histórico/Vila Buarque, outros três lugares para visitar na cidade:
O Museu Lasar Segall, ao lado do metrô Santa Cruz, tem museu, cinema e oficinas de temáticas diversas ao longo do ano. A Ilha do Bororé, no extremo sul da cidade, cercada pela Represa Billings, tem oferta de ecoturismo e um estilo de vida diferente. Se conseguir, conheça a Casa Ecoativa - sempre é mais facilitado o acesso se conhecer algum amigo que viva na região do Grajaú.
Por último, abraçando a dualidade sempre latente que existe na minha escrita confusa e no meu pensar, o Mube, Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia, projeto de Paulo Mendes da Rocha. É meu museu favorito da cidade, mas o entorno não facilita a a mobilidade urbana e sempre chamo carro de aplicativo para visitá-lo. Além disso, é notável a disparidade econômica, como comprova a quantidade de veículos de luxo na região, reflexo de poderes de grupos e uma sociedade estruturada de maneira desigual, bem-vinda a realidade.
São Paulo ainda é uma cidade que me salva, como acredito que salva as pessoas curiosas, todos os dias com tamanho caos e disponibilidade de escolhas.
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As edições especiais do Guia já passaram pelo Ipiranga, por Pinheiros, pela Zona Sul, pelo Bom Retiro. Já cobriram livrarias e cinemas de rua, programações dos Sesc e bibliotecas públicas.
Para sugerir uma colaboração ou um tema, é só me escrever:
🎵 Semana da Música Italiana
Iniciativa do Instituto Italiano de Cultura de São Paulo, com correalização do Sesc SP e produção da Associação SÙ de Cultura e Educação, a Semana da Música Italiana chega à sua 3ª edição trazendo ao Brasil dois nomes da cena pop/alternativa do país. De um lado, Venerus apresenta a “Speriamo Tour”, show que mistura pop sofisticado, eletrônica, rap e jazz e aposta numa encenação híbrida (música, teatro e dança). Do outro, Whitemary — cantora e produtora ligada ao coletivo feminino Poche — cruza techno, house e pop em performances ao vivo com sintetizadores e recortes pessoais nas letras. A programação passa por São Paulo e interior, com apresentações em Santos, Taubaté, Campinas e na capital.
Na capital, os shows acontecem em duas casas com perfis bem diferentes: Venerus toca na Casa Natura Musical (27/05), enquanto Whitemary se apresenta no Sesc Pompeia (30/05) — dois bons termômetros para ver como essa nova cena italiana soa ao vivo, entre palco de club show e espaço de programação cultural.
📅 26 a 30/05/2026 (datas variam por cidade)
📍 Sesc Santos, Casa Natura Musical, Sesc Taubaté, Sesc Campinas e Sesc Pompeia
🔗 Programação completa no site
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Cheguei no Substack no começo de 2021, motivada por autoras que já estavam aqui como a Lalai Persson e a Aline Valek.
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A edição de hoje é assinada por Liv Brandão, carioca e habitante da Barra Funda, autora da newsletter homônima aqui no Substack.














